Nota: da série ‘Cartas que, desesperada, não mandei’

Dar uma espairecida, tomar um ar. Essa ideia de errado, de “onde foi que eu me meti” me perturba cada vez mais e eu já não sei se quero de novo, se não quero mais. Hoje você tava chato e eu me pergunto se você é assim mesmo e eu não tinha percebido pela cegueira que a paixonite causa, se era meu estado muito alterado de consciência que me fazia admirá-lo tanto. Já não sei mais se é a situação ou se é você o errado. E tá acabando. O convívio, os trabalhos, a rotina, a gente. Talvez esteja na hora mesmo de alçar novos voos e achar meu lugar. Só meu, não com você ou por você ou para você. Meu. Para mim, comigo e por mim. Difícil essa coisa de pronome, né? Eu que sempre fui tão possessiva, abri mão de mim me doei a você. Não me resta nada. Já não me tenho mais e me iludo, achando que te tenho.
Mas você não é meu. Sabe que se não houvesse essa terceira pessoa, as coisas poderiam ser mais fáceis. Mas, espera aí, a terceira pessoa na verdade sou eu, eu que me meti onde não devia. Sabe que existir uma terceira – independentemente de ser eu ou ela – faz de você um filho da puta. E você cumpre tão bem este papel de canalha que nem me lembro de que sou a outra. Filho da puta. E eu aqui, dando uma de nora, preocupada com a sua mãe, tentando achar jeitos de te ajudar a fazer algo especial justo pra ela que te criou com tanto mimo de filho único que te fez pensar ser único mesmo. E é. Filho da puta. Bom de lábia, bom de piada, bom de cama. Eu caio na sua mesmo sabendo de tudo. Burra. Um filho da puta e uma menininha iludida, encantada, burra. Tenho dó de você, de quando for rejeitado, de quando não conseguir o que quer. Porque esse dia há de vir. Tenho dó de mim, do dia em que a realidade bater à porta e eu tiver que entender, na prática, que era brincadeira, que era aventura, que não tinha nada de amor. Mas tenho dó mesmo é de quem ama sem controle, acredita piamente e tira os dois pés do chão. Tenho dó de quem dorme com um filho da puta achando que acorda ao lado de um príncipe. Da dó de quem não só tira, mas lava e passa as roupas amassadas, traidoras. Da dó de quem tolera o Sr. Tudo Tem Que Ser Do Meu Jeito. Eu sofro, mas mando embora quando não o aguento. Tenho do é do terceiro elemento.

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