E aí a gente se desespera e liga pra tudo quanto é gente da já carimbada lista telefônica para ter certeza de que vai fazer alguma coisa diferente do que ir pra casa sozinha chorar as mágoas da decepção.

E aí a gente aceita convites de última hora e até se diverte, mas não consegue parar de pensar em como teria sido tão mais legal se fosse de outro jeito. Aquele, combinado. E aí a gente foca no trabalho e nos estudos que é pra tentar esquecer que se envolveu, mesmo sabendo que não podia, que não devia, que era errado. E aí a gente tenta se convencer de que é errado mesmo, que não daria certo, que não funciona. Mas aí a gente lembra que era bom, porque era mesmo. E aí a gente tenta se afastar, não demonstrar e em hipótese alguma ligar. E aí a gente mantém as mãos bem longe do telefone, mas vai até o céu quando este se manifesta. E aí a gente vai conferir, esperançosa, e descobre que é só mais uma mensagem sobre amor, daquele serviço que não foi comprado, mas insiste em comer os poucos créditos que ainda restam. E aí a gente lembra que tem que ligar pra TIM, pra cancelar essa porcaria que além de roubar uma fortuna de centavo em centavo, ainda é inconveniente, falando de decepções e dor de amor nos momentos em que estes são os únicos assuntos a serem evitados. E aí o coitado do moço do outro lado da linha não entende nada quando começamos a xingar a operadora de filha da puta, egoísta, insensível e enganadora.

– Mas, senhora, quando essas coisas de amor te perturbarem, é só responder com a palavra NÃO, que isso para – esclarece o paciente moço.

Como se a vida fosse assim tão simples.

E aí a gente desliga o telefone, estupefata de ver como alguém tão fora da situação conseguiu dar a luz que precisava. E aí tudo faz sentido e a gente consegue enxergar a situação. Some a vontade de trabalhar feito cão e focar nos estudos volta a ser difícil. Mas difícil mesmo vai ser, enfim, enviar a palavra NÃO.

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