– Que graça teria nossa vida sem boas (leia-se trágicas, dramáticas e cômicas) histórias para contar e ouvir? – indaga meu amigo Salomão

Penso, por alguns silenciosos segundos.

Lembro da vez em que, a fim de paquerar o mocinho do terceiro colegial, espetei toda minha bunda de menininha da sétima série em um canteiro cheio de espinhos, fazendo com que, para sempre, associasse rosas ao menino que, na época, tinha o apelido de Vampirão.

Penso também em quando nos comunicávamos, eu e minhas amigas, por meio de recadinhos jogados pela janela com os meninos mais velhos do colégio. Foi assim que recebemos o apelido de Julietas de um querido e inesquecível professor. Seguimos buscando nossos Romeus.

Recordo a vez em que agarrei um japonês em pleno metrô canadense. O vagão estava tão cheio que não conseguia me equilibrar. Na brecada que deu, não pensei duas vezes. Fui xingada de inúmeros palavrões japoneses que jamais entenderei. Mas nunca me esquecerei da sensação de conforto do paletó macio ou da intimidade que tinha com a amiga que ria compulsivamente de meu lapso e com quem, hoje, nem falo mais.

Lembro do dia em que cantei, em solo canadense, “um elefante incomoda muita gente”com uma amiga brasileira. Juntas, chegamos até o número 200 ao esperar pelo ônibus que nunca chegou. Na mesma tarde, sambamos em volta do guarda-chuva a fim de convencer o guarda do consulado que éramos, de fato, brasileiras, e que precisávamos de ajuda por termos perdido nossos passaportes.

Coro ao recordar o tombo que levei ao tentar impressionar, aos 16 anos, meu namorado mais velho, usando salto agulha de mais de 15 centímetros. Essa cicatriz, no joelho, eu tenho até hoje. O mesmo namorado me levou de moto (quase uma biz) até a praia e eu só me lembro de berrar, durante toda a descida da serra “eu vou morrer e minha mãe vai me matar!”. Sobrevivi. Mas voltei de ônibus.

Sorrio ao pensar na vez em que saí do novo apartamento correndo, com chaves, cadernos, livros, sapato, desodorante e bolsas nas mãos e dei de cara com o cara mais bonito da face da terra no elevador. Seria até despojado, não fosse o enorme pedaço de panetone sendo mastigado em minha boca, impedindo qualquer tipo de comunicação ou sorriso ou classe ou dignidade. Fiasco.

Dei em cima do professor de spinning, que era gay. Confessei meu amor bêbado a um garçom muito simpático e acordei com várias mensagens no meu celular. Bebi pinga achando ser água e água achando ser pinga (tamanha a bebedeira). Cantei no karaokê achando que arrasava na interpretação da Madonna, no primeiro encontro. Topei um encontro às cegas e passei a noite dobrando guardanapos ao ouvir as histórias de um lutador de jiu-jitsu que não sabia falar de mais nada, além dos próprios músculos. Sem contar a vez em que escorreguei no cocô de cachorro e sujei minha calça, minha bunda, minha bolsa e meu paquera, bem no meio da rua.  Fiz amizade com travestis e passei o ano novo numa balada gay muito louca. Cheguei atrasada em inúmeras sessões de cinema com uma amiga que consegue ser mais enrolada do que eu. Com ela, dou risada até cinco da manhã dentro do carro. De dramas meus, nossos e de nosso grupo de amigos – todos desajeitados.

Choro de rir sozinha e respondo, convicta:

– Nenhuma.

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