Queria ser uma daquelas mulheres fortes, daquelas que são tema de livros, biografias, músicas, filmes, seriados, tudo para mostrar às outras mulheres – que não são tão fortes – como as coisas têm que ser.

Mas não. Às vezes me faço forte por um ou dois meses, sabe como é…
E resolvo que vou mudar de ares, que vou mudar de vida, que vou mudar de cores. E mudo mesmo. A cor do cabelo, da parede, do lençol.
E mudo mesmo. De apartamento, de roommate, de roupas.
Mas o que fica mudo mesmo é o coração. Para que tudo isso aconteça, é ele que deixo de lado.

Mas só por um ou dois meses de fortaleza invencível, de muros inderrubáveis, de textos indecifráveis. Nesses um ou dois ou três, até, meses eu viro fera, grossa, chata e linda.

Incrível como os homens gostam de mulheres fortes. Que não se acham, se têm certeza. Que pensam, que leem, que escrevem, que discutem e que transam.

Mas continua sendo (ainda mais) incrível o poder do tempo e do vento que traz coisas velhas disfarçadas de novas. E passam esses um ou dois ou três meses. E passa a fortaleza e derrubam-me o concreto do muro e decifram-me em minhas frases tão comuns.

E a mulher forte e grossa e chata e briguenta e linda murcha. Dando espaço a uma menina fraca, besta, burra, encurvada, chorona e bem desinteressante. Que quase nunca transa. Uma idiota que aceita grosserias, que perde o apetite e vomita de nervoso, que coloca o som bem alto na playlist de fossa e sente pena de si mesma. Uma mocinha que aceita esperar, que acata a decisão do outro, que obedece, que omite o desejo mesmo quando borbulhando, que se acaba e que insiste na teimosia do erro que já acabou.

Ser forte, talvez, seja passar o que passa sem cometer suicídio ou perder o parafuso do equilíbrio. Sem chegar ao trabalho chorando, sem desistir do dia de amanhã. Ser forte, talvez, seja dar uma chance para o erro virar acerto e as lágrimas virarem afeto e o sofrimento virar amor. Talvez ser forte seja tentar de novo, seja levantar a cabeça humilhada, seja perder a dignidade por pura escolha racional, seja arcar com as consequências da própria inconsequência. Talvez seja continuar.

Mas talvez não, né? Talvez uma mulher forte mesmo seja aquela lá, do começo do texto, que tem livros e filmes e músicas, que não chora e nem vomita de nervoso, que pisa nos homens e decide quando, onde e porquê, que carrega uma fortaleza invencível, muros inderrubáveis e textos indecifráveis. Que não precisa mudar de cor de cabelo, lençol e paredes para mudar de vida. Que é linda porque sim e sabe disso.

E isso, talvez eu nunca seja.

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