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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

agosto 2012

Fera, bruxa, anjo, mulher e mãe. Minha mãe.

Quando eu estava na primeira série do ensino fundamental, uma valentona mais velha me enforcou no ônibus escolar só porque eu estava lendo o jornalzinho da escola.

Sim, eu era nerd. Ao lembrar-me do sufocamento chego a sentir calafrios. A motorista conseguiu me salvar antes que perdesse todo o ar e desmaiasse, mas meu caminho de volta pra casa foi sombrio e encharcado de lágrimas desesperadas e temerosas.

No dia seguinte, foi minha mãe quem me levou para a escola. Ela fez questão de achar a valentona, que também estava acompanhada da mãe, apontou o guarda-chuva para as duas e com uma valentia memorável deixou claro que aquele comportamento não deveria ousar repetir-se sem graves consequências. Dava para ver o medo no olhar da família valentona e daquele dia em diante tive certeza de que, pelo menos todos aqueles que estavam no pátio, nunca mais mexeriam comigo.

Essa é Vera. Dona Vera Flore. Ela não chega a 1,60m de altura, mas vive apoiada em altíssimos saltos desde quando me reconheço por gente. Seus cabelos são loiros, vezes curtinhos, vezes compridos e sempre repicados e modernos.

Vaidosa, ela não dispensa lápis escuros e rímel nos olhos, mas hão de ser à prova d’água sempre. Eu, meu pai e meu irmão brincamos e a irritamos muito ao dizer que o choro começa logo quando é possível ler “Walt Disney apresenta” na tela do cinema. Seu filme favorito, tirando os milhares estilo ‘água com açúcar’ organizados em ordem alfabética na estante da sala, é o desenho intitulado Monstros S.A.

Mas muito se engana quem se deixa levar pelo aspecto manteiga derretida. Minha mãe é uma mulher de pulso firme, forte, que cuida das despesas da casa, administra trabalho, casa, filhos e meu pai – que não é nada fácil. Como mãe, dona Vera é superprotetora sempre e devo confessar que nem sempre entendi ou aceitei esta sua característica.

Minha mãe teve muitas dificuldades em lidar com minha versão adolescente rebelde. Nunca fiz nenhuma grande loucura, de deixar os genitores de cabelos brancos, mas a relação, ali, não era nada fácil – começando pelas manhãs de carona à escola em que mamãe já estava toda elétrica e falante enquanto eu queria atirar-me da janela de tanto mau humor.

Sorte dela, existe meu irmão, um meninão apaixonado pela figura materna e pela comida temperada da qual tanto reclamo. Creio que, diferentemente de mim, aquele ali não sairá da barra da saia ou da casa da mãe tão cedo.

Quando adolescente, por vezes eu pensava que poderia ser legal se minha mãe fosse outra mãe, de repente aquela mãe descolada, daquela amiga legal. Creio que ela também quis mudar de filha algumas vezes. Mas logo desistíamos da ideia e voltávamos pra casa, divagando sobre a vida.

Mesmo diante de meu constante esforço em fazer-me distante, mamãe ainda é a única que sabe distinguir minhas crises de simples mau humor matinal ou TPM inventada para encobrir qualquer dilema emocional mais grave. Ela sempre enxerga tristeza em meus olhos, mesmo quando estou sorrindo e entende quando – não raras vezes – não quero falar sobre o assunto. Deve ser experiência de psicóloga e devo confessar que ter mãe terapeuta é quase como viver a vida deitada em um divã – que, hoje, me parece até confortável. Foi sua análise diária sobre minha pessoa que me convenceu a optar por jornalismo em vez de obstetrícia ao preencher o formulário para o vestibular e, odeio admitir, mas acho que ela acertou.

Dona Vera é o tipo de motorista ousada, que corre e disputa curvas com ônibus e caminhões – e sempre vence. Minha mãe dirige melhor do que o meu pai, administra o dinheiro melhor do que qualquer financeira e descobre toda e qualquer mentira, como se fosse bruxa.

Algumas pessoas têm um pouco de medo dela e eu acho isso muito engraçado, porque, apesar de bem brava, para mim, mamãe é do tipo que puxa papo com o padeiro, com o porteiro, com a empregada da vizinha, com a própria vizinha e com qualquer um que esteja disposto a gastar um belo tempo tendo uma bela conversa.

Às vezes, devo confessar, me irrita um pouco tanta simpatia, mas isso certamente é culpa dos genes herdados do papai, que me fizeram mais mau humorada e bem menos sensível do que a dona Vera.

A verdade, que mamãe desconhece, é que queria ser um pouco mais parecida com ela – uma pessoa um pouco melhor, de repente. Eu tenho é muito orgulho em ser filha da minha mãe, sabia? Se todo mundo tem, de fato, a mãe que merece, então devo ter feito coisas muito boas em outra vida e tentarei manter o bom comportamento nesta – que é pra ver se tiro a sorte grande de novo na próxima.

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No more sad refrains

Chega de trabalhar essa pauta. Parece programa sensacionalista. Se a dor tá acabando, arrumamos uma maneira de fazê-la voltar a habitar infinitas páginas em branco do Word.

Aproveitamos um fiozinho de inspiração proveniente de uma grosseria, de um reencontro, de um suspiro de esperança e torcemos até a última gota do pano encharcado de sangue. Páginas e páginas de um mesmo obituário.

Choramos a morte de um corpo já decomposto, invocamos um espírito já reencarnado, não nos deixamos em paz.

Mais do mesmo. Mesmo quando demais.

Agora chega de expor a mesma dor. É honra não merecida ser tema de tanto texto, nem tem mais pano pra tanta manga.

Tirando os rascunhos – textos velhos que aproveitamos como novos quando a vida não nos deixa escrever – discorreremos sobre o sexo dos anjos, a morte da bezerra e a vida extraterrestre. Comentaremos assuntos de elevador como “será que vai chover?” e cabe até fofoca de famosos, caso fique mesmo difícil arrumar assunto.

De repente um poema sem sentido, quem sabe?

Ou umas rimas descabidas, ironia mal colocada, podemos até inventar uns verbos novos, que tal?

Talvez percamos alguns leitores. Porque, né? Dor de amor vende (até para mim, que escrevo sobre ela). Mas recuperaremos a sanidade mental e talvez ainda salvemos um restinho de dignidade. Torçamos!

Shame on us

Frases idiotas proferidas na mesa do bar.
Mesmos conselhos e mesmas broncas.
Nenhuma nova reação. Mania antiga de vomitarmos aos berros os erros cometidos.
A culpa do monólogo cansativo é sempre atribuída à bebida – seja ela uísque, vinho, cerveja ou suco de melancia com gelo.
Vacilamos de novo por sermos jovens, nossos impulsos nos movem, agimos sem pensar. Quem nunca, né?
Mas o buraco passa a ser mais embaixo. Porque o problema aqui, meu amigo, é “quem sempre”.

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