É mais ou menos assim: o organismo, veja bem, já se acostumou com a ideia de acordar antes, bem antes, das duas da tarde. Tem gente que diz que são hormônios de gente grande, já eu, creio ser apenas uma injustiça do tempo, que faz a gente acostumar até com o acordar quando tudo que se queria era esparramar o corpo, anseios e sonhos em lençóis macios sem pressa ou compromisso.

A gente acorda, então, mesmo sem o apitar de um despertador pra vida, já mais convencida de que o outro lado da cama (aquele, vazio) deve ficar assim mesmo por algum tempo, levanta, escova os dentes de porta aberta, escolhe um vestido, uma meia-calça, uma sapatilha. Confere a geladeira, percebe a falta de danoninho, gosto de infância, e anota na tentativa de lista grudada no armário de besteiras, os itens de sobrevivência a serem comprados na semana.

A ideia de escolher produtos de limpeza no supermercado ainda confunde um pouco e é nessas horas que a gente percebe que a verdadeira função do elevador é pegar dicas com as incrivelmente solícitas e simpáticas faxineiras alheias.

É de praxe também dar umas risadas ao retirar a correspondência com o porteiro. A gente sabe que rádio-peão existe em todas as profissões, mas você não faz ideia do poder do tanto de informações que têm os porteiros – sabem das entradas e saídas, acompanhantes, brigas, pegações no elevador e nas escadas, separações, reclamações, encomendas, brigas de vizinhos, conhecem pijamas e até rotinas de delivery.

Na volta do mercado, um cafezinho na padaria, uma passada na floricultura. Nunca imaginei colorir minha casa com flores vivas, de fato, mas, assim como o sono, a vontade de concreto diminui de tempos em tempos.

Preparar o almoço ao som de sessão da tarde, aprender a temperar feijão, descobrir que alguns legumes são mais gostosos refogados do que cozidos, fritar bife sem contaminar a casa toda e lavar a louça sem reclamar. Tirar um cochilo de beleza, bem torta, espremida no sofá, acordar com vontade de gente. Visitar um amigo querido, tomar café da tarde com caipirinha, cerveja, uísque ou café mesmo, colocar as fofocas em dia e deixar em aberto um jantar no japonês.

Navegar um pouquinho pelas redes sociais, ainda evitando, agora sem culpa ou pesar, a página que insiste em continuar em branco no word e assistir com muita atenção a qualquer coisa no Discovery Channel.

Colocar o pijama só para ficar confortável ao ouvir as peripécias do dia agitado da roommate, optar por atum com torradas no jantar, esticar os velhos lençóis amaciados e perfumados, magicamente, pela máquina de lavar, sorrir ao comer um danoninho como ceia, beber água direto da garrafa, trancar as portas e apagar as luzes, observando sem pressa a vida que passa enquanto a gente descansa o corpo na rede da varanda florida.

Repousar o corpo com enorme prazer no macio do colchão semi-novo e assistir ao Saia Justa e até ao Programa do Jô sem se preocupar com dormir tarde ou pouco. Amanhã, o dia também será deliciosamente desplanejado e ocioso. Pensei até em ir correr no parque, veja bem.

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