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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

novembro 2012

Começo, meio e fim

Era o destinatário de qualquer carta. Aceitava remetentes desconhecidos ou selos mal-colados em cartões postais de lugares que nunca iria conhecer.
Só sonhava com montanhas quando estava na praia, só gostava do sol quando caía a chuva, só queria caminhar quando tinha os dois pés engessados.
Viveu uma vida de mentiras incontroláveis e desejos insaciáveis.
Morreu com os pés na areia e a cabeça nas nuvens.

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Vida de agora

A gente se encolhe e se enfia na concha, não deixa a onda levar, não deixa a brisa bater, não deixa o sol queimar.
Tudo o que fazemos é reclamar.
Menina, chega de tentar. Vai lá conseguir, vá se machucar, vá viver, e não precisa nem amar.
Conhece, visita, levanta, canta.
Que a vida é curta.
Que o tempo muito leva e pouco traz.
Que o mundo é grande, grande demais.

Mulher mexicana

Ser revolucionária não é beijar homens e mulheres, fumar maconha na praça, ter ‘trabalhos de homem’, mostrar o corpo sem querer dizer que se insinua, ter nome de fruta ou tatuar o orifício anal.
Ser a frente de seu tempo, creio, é pedir o divórcio do esposo, mãe e pai e decidir trabalhar.
É não ser controlada por marido algum, não preparar a janta todas as noites e dizer a seu filho que não só pode, como deve ajudar a futura esposa nas tarefas domésticas.
Ter coragem é assumir um filho estando solteira, enfrentar uma gravidez completamente sozinha e não ter medo de mimar o marido de menos e ser trocada por outra.
Ter personalidade é não aceitar a infidelidade do homem, não dar ouvidos a tudo que diz o padre – da igreja ou seu próprio – e não viver para sempre um casamento arranjado.
Ser forte é criar muito bem três filhos sozinha, cuidar da casa e trabalhar fora.
É caminhar pelas ruas com um largo sorriso no rosto e ter a certeza de que a vida nem sempre é fácil, mas que, por agora, está se saindo muito muito bem.

Triste tarde

Passei a tarde toda admirando folhas caírem de suas árvores no meio da praça.
A bebê gordinha, de quase dois anos, usava conjunto quentinho de calça e blusa rosas.
Só as xuxinhas nos cabelos se viam brancas – como as nuvens que fazem contraste no céu azul.
Com as mãos mais pequenas que já vi tão de perto, transportava as folhas caídas de um lado a outro.
Tropeçava com suas pernas de quase-gente, mas nunca caía.
Fazia sons que sua mãe nem tentava entender, enquanto lia a alguma mensagem – que julgo muito importante – em seu celular.
E assim o tempo passou, ao som dos galhos que bailavam ao ritmo do vento, como as folhas que mudavam de ares ao gosto da menininha.
E assim a noite chegou, trazendo no escuro a vontade adormecida de voltar à casa.

Cada um sabe o que melhor lhe serve de medicina.

Apenas uma mensagem

E aí eu to sentada sozinha em um banco dessa praça em que essas crianças brincam e as pessoas passam e os poetas vendem suas dores e ideias e que, para muitos, trata-se apenas de um pedaço de papel menos importante que o higiênico. Fumo meu cigarro imaginário – sempre o faço quando está frio e pensar na vida é quase tão vital quanto respirar. Não ligo muito pros mariaches que fazem festa no coreto, atenho-me ao meu iPod. Prefiro uma banda ainda desconhecida pela massa que enche estádios de futebol e compra ingressos que valem o preço de um mês de aluguel de um apartamento mais ou menos habitável no centro de São Paulo. A vida segue a mesma, mesmo quando muito diferente. Nem lembro tanto daqueles que deixei em minhas terras também tropicais. É como uma defesa. Mas então, bem ao lado, meus olhos se deparam com três amigas abraçadas. Creio que não seja só o frio – carinho nunca dependeu de clima. E me dá vontade de tatuar um trevo e de abraçar aquela de bochechas rosadas, a única que me chama de Anita. Aqui não tenho apelidos, não. E não abraço com tanta frequencia quanto gostaria. E aí abro o facebook só para te mandar uma mensagem falando ‘oi, como estão as coisas por aí?’ e acaba saindo um texto.
Na verdade, só queria dizer que, puta que pariu, tô com saudades!
Beijo grande e, por favor, sinta-se abraçada. Faça-o, principalmente porque neste exato momento sou a mais louca da praça, agarrando minha jaqueta de couro como se cada manga e cada pedaço de tecido fosse você e as outras duas folhas que, vitais, me fazem sempre inteira.

Carta aberta a mim mesma

Querida Ana,

Hoje é dia 6 de novembro de 2012.
Você (ou eu, não sei direito como mencionar-nos) está no México, vivendo na casa da Linda, estudando espanhol.
No último mês, Ana, você descobriu que, metaforicamente falando, há vida após a morte, há luz no final do túnel, não há noite longa que não encontre o dia.
Escolha, minha querida, o clichê que preferir, não importa. Você virou a página e descobriu que há muito mais a ler.
Hoje, amada, você acredita. Em sonhos, em um futuro, em destino. Mais que isso. Hoje, você acredita em você. Entende que, de fato, nenhum ser humano é uma ilha e que sim, você precisa de contatos e, vamos combinar, relações interpessoais que tenham a ver com atividade humana já não podem ser um sacrifício. Não pra você. Afinal, sabe que tem os melhores amigos que existem.
Mas também sabe que dá conta de muito sozinha. Que se adapta, que se esforça, que consegue. Seja lá o que for. Basta estar realmente determinada.
O medo ainda existe, claro, você nunca vai deixar de ser aquela menina que fazia das cobertas o esconderijo perfeito para qualquer mal que pudesse existir. Mas, agora, ele não anda mais a frente, impedindo a passagem, e muito menos atrás, empurrando pro penhasco. O medo, garota, anda ao lado, quase que de mãos dadas.
E a vida vai ficando divertida.
Você olha para trás grata pelos erros cometidos. Sem eles, jamais chegaria até aqui.
Agradece também os pontos positivos e, principalmente, a enorme base de apoio chamada família que sempre segurou as pontas quando viver era um pouco demais para você.
Neste momento, porém, não há dia mais importante que o dia de hoje – aquele, em que dá para diminuir as marcas e cicatrizes do passado e começar a construir um futuro mais colorido.
Desenhe, Ana. É esse o conselho que lhe dou para quando, em um ano, ler esta carta de novo. Desenhe na sala de aula ou no trabalho, quando estiver entediada ou cansada – você sabe que isso sempre te ajuda. Desenhe nas paredes quando sentir que precisa mudar a cara do apartamento – não há cor mais original que esta. Desenhe para amigos, entregue cartões feitos à mão – mais barato e pessoal. Desenhe as linhas da sua vida. A caneta, pelo menos em metade do tempo, está em suas mãos – é você quem decide se o próximo traço será à direita ou à esquerda.
Desenhe com cores. Pare de trabalhar somente com tons de cinza. Descubra cores inesperadas de misturas divertidas. Não tenha medo de ousar, criatura.
E seja muito, muito feliz.
Lembre-se: hoje é 6 de novembro de 2012 e, sim, você acredita.
Um beijo,
Ana.

Hoje é domingo, pede cachimbo…

…O buraco é fundo, acabou-se o mundo.

Ficou bebadinha no almoço de família e confessou ao primo de segundo grau os sonhos eróticos que andava tendo.
A tia brigou com o tio, que ofendeu a vó ao criticar sua comida salgada.
O vô dormiu no sofá, enquanto o timão perdia de 2×0.
A prima não saiu um segundo do celular, fofocando com amigas distantes, e a mãe tentava desvendar os segredos encontrados na mochila do filho.
O pau começou a quebrar quando o espertinho do cachorro lambeu o molho de tomate feito para o macarrão.
O irmão, astuto, comeu o frango – ainda intacto – sem saber que o pai percebia que tava doidão.
O vizinho trouxe uma boa sobremesa. Mas ninguém deu bola.
O astro, para variar, foi a torta de abóbora da vó, que, mesmo queimada, tinha gosto de tradição.
Tem gente que chora, que ri e que arruma desculpas para se safar – mas sempre tá lá.
E assim, todo domingo, é feita a mesma refeição.

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