“Êêêê” … “Êêêêê” – grita o homem demasiado temprano em minha janela. Até hoje não entendo o que ele fala, só sei que ele vende gás. Para cima e para baixo com o enorme cilindro cheio apoiado nos ombros fracos. Callejones, vielas, avenidas. Aqui não tem caminhão com sinfonia, é a potência da garganta que salva o almoço e o banho quentinho a cada quarta feira.

Na lojinha da esquina nunca tem caixinha pequena de leite. Tem que levar 2 litros ou nada. Sempre saio de mãos abanando e com um convite de fiesta de cumpleaños da Gaby, que até hoje me chama de Verônica “porque eu pareço muito com a artista da televisão”. Seu aniversário foi em janeiro, mas parece que o salão-da-casa-do-tio-do-amigo-do-vizinho-do-primo, que vai emprestar o local para o evento, ainda não está pronto.

Sem leite, sou obrigada a levar suco de goiaba ou tenho que caminhar à loja de conveniência mais próxima. Mas como lá nunca tem troco, deixo por isso mesmo.

Saio cedo, mas chego tarde. Isso porque em meio a convites e sucos e (falta de) leite, paro para cumprimentar a Flo. Eu prefiro dizer ‘Flor’ – me parece mais cheiroso – porque apesar de bonito, ‘Florencia’ é muito grande. Mas Flo prefere assim, sem o ‘r’, diz que parece mais carinhoso. Flo é a única pessoa que recebe um sorriso verdadeiro antes das 9 da manhã. Nosso diálogo é sempre o mesmo, com pequenas mudanças – se faz frio ou calor; como foi a aula de zumba ou de vôlei – mas segue sendo indispendável.

O sorriso falso só começa a ser ensaiado pouco depois das 9h e dura até o meio-dia. Quando me sinto livre. Almoço, troco mais alguns sorrisos, esbarro nos de sempre, reparo nos novos, conto 5 degraus, cuido ao atravessar a rua, caminho, caminho e caminho.

Vou à comunidades, cuido de crianças, conscientizo indígenas, contabilizo horas de trabalho de mulheres que dormem 2 horas por noite. Acompanho casos horripilantes. Atendo ao telefone, respondo a e-mails, atualizo o facebook com imagens de mulheres fortes.

Falando em forte, tonalizo mi pompis em classes de step, zumba e tae bo – não necessariamente nesta ordem. Ajuda a aliviar a pressão de conhecer problemas tão sérios. Tomo banho, leio um pouco, escrevo um pouco, saio um pouco.

Volto. Spray na mão. Visão raio-x. É hora de matar qualquer coisa incapaz de sobreviver ao super-veneno-salvador-da-minha-vida-mexicana. Cucarachas, alacranes, insetos rasteiros e que voam, coisas estranhas que pulam e qualquer ser ousado o suficiente para ameaçar-me em minha única zona de quase-conforto.

Escuto atentamente às aventuras de minhas roommates enquanto espero o quarto arejar – na esperança de não me afogar em meu próprio veneno -, assisto a qualquer coisa completa no youtube. Cochilo. Lembro que acabou o gás e durmo torcendo para amanhã ser quarta feira.

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