Lembra quando a gente chegou aqui, meu deus?

Uma menina de olhos chorosos e bússula quebrada. Não fazia a menor ideia de quem era ou de quem poderia vir a ser.

No começo, foi o México que teve que se acostumar com minhas roupas bregas, minha temporária aversão a todos os tipos de chile, minha mania de comer abacate com açúcar e meu mal espanhol.

Para mim, no entanto, foi rápido entender a geografia das pequenas calles, o bom humor matinal mexicano, os mariachis invadindo os restaurantes e os domingos com direito a banda no coreto.

Por meses eu esqueci o que era andar de carro, demorar mais de 15 minutos para chegar em algum lugar ou passar o sábado em um shopping center.

Nos finais de semana, com pouco dinheiro, pegava qualquer ônibus e visitava cidades vizinhas, com diferente culinária, diferentes morros, diferentes pessoas e igrejas muito parecidas.

Não tive problemas com as peregrinações matutinas que tomavam toda a minha rua. Algumas eu até acompanhei. Aliás, gostava muito de participar de eventos locais. La única güera em meio a todos aquelos mexicanos festeiros e fiéis.

Se a minha história com Guanajuato tivesse terminado quando estava programado,  esta pequenita cidade mexicana estaria para sempre em meu coração como a cidade da magia, felicidade e calmaria. Provavelmente seria destino de inúmeras férias e de vida depois da aposentadoria.

Mas estar apaixonado, minha gente, funciona da mesma maneira em qualquer lugar do mundo. Assim, Guanajuato e eu, sofremos a crise dos 7. 7 meses depois, as cucarachas começaram a me incomodar. O fato de ter que buscar pequenos animais mortais como aranhas e escorpiões debaixo da cama, nas frestas das janelas y en todos los rincones me empezó a molestar. Mesmo.

As mesmas músicas dos mesmos mariachis a cada restaurante me agradava cada vez menos e quando a banda do coreto começou a me irritar, meu amigo, eu soube que era o fim. Depois de 9 meses, o cheiro de tortilla de maíz sendo feita passou a ser veneno pro nariz e o sotaque mexicano já não era mais assim tão bonitinho.

Comecei a sentir falta até do trânsito de São Paulo e passei a não entender como pessoas de países como Estados Unidos, Canadá e Suíça resolviam ficar para sempre em Guanajuato. Os óculos cor de rosa caíram e o ar seco e a altitude daquela cidade que um dia me surpreendeu, começou a me fazer mucho daño.

A vida tem ciclos e o segredo é saber enxergar a hora de fechá-los. Se eu insistisse um pouquinho mais, acredito que sairia daqui com um verdadeiro asco de tudo que tem a ver com México. Mas, felizmente, minha história se encerra a tempo de receber o meu diploma e reconhecer que o país da tequila foi meu melhor amigo e a melhor coisa que podia ter acontecido em minha vida neste último ano.

Foi aqui que eu descobri quem eu era sem medo de mostrar-me ao mundo. Foi essa cidade que me acolheu com seus callejones íngrimes e o ar seco nem fez tanto mal assim. Saio daqui uma pessoa muito melhor do que cheguei. Com amigos de todas as partes do mundo, inúmeras fotos, um repertório cheio de malas palabras y canciones en español, histórias para contar, receitas de abacate com sal e já sem paixão, mas com muito amor que, muito claro e límpido, seguirá comigo até a eternidade. Guanajuato sempre fará parte de mim e eu sempre farei parte de Guanajuato.

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