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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

julho 2013

Uma carta e qualquer órgão que você precisar

Tem gente que te vê amarelo. Eu te vejo lindo.

Tem gente que fala com você com pesar. Eu pergunto as novidades e, por tanto te conhecer, estou preparada para qualquer reação vezes exagerada e precavida que você pode ter.

Tem gente que não sabe direito como te ajudar. Depois de tudo que você fez e tem feito por mim, não ligo em limpar, arrumar, carregar, acariciar, dar de comer, cobrir e apapachar. 

Você às vezes tem medo de onde tudo isso pode dar. Eu confio e nunca tive tanta certeza de um final feliz.

Tem gente que diz que os sentimentos estão confusos. Eu não tenho nem um pingo de dúvida. É amor. Infinito. Pleno. Verdadeiro e eterno.

Alguns podem se assustar com sua aparência. Para mim, você sempre vai ser a almofada em que eu me deitava, o aconchego da barriga de quando eu tinha 5 anos. A barba gostosa de coçar. O nariz irresistível de apertar e os olhinhos que, para sorrir, têm que fechar.

Você é a minha fortaleza, meu chão, meu GPS, meu mapa, meu porto seguro, bússola, norte, leste e oeste. Você é a bronca e a passada de mão na cabeça, o soco amoroso na barriga e a choro apertado no peito.

Você é o melhor gosto musical, é filme clássico, programa de culinária em Paris e degustação de vinho chileno.

Você é cobertor em dia de chuva, é trabalho com gosto de férias e coca-cola gelada na praia.

Você é o meu herói matador de insetos, pau pra toda obra. É meu google humano, Pavlov meio maluco e Einstein com menos cabelo.

Você é minha versão masculina de amanhã, contador de histórias e colecionador de amigos.

É restaurante chique em dia de aniversário, é praia fora de época, é brigadeiro na dieta.

Você é minha meta de vida, minha obsessão e amor maior. É tatuagem sem tinta, marca profunda, árvore plantada e livro escrito.

É o melhor crítico, amigo, professor. É meu mestre, meu velho, meu exemplo.

Você é meu pai. De sangue, alma, vidas passadas e karma. Te dou meu fígado, meu rim, minhas veias, braços e pernas. Pode ficar com meu cérebro, meu joelho quebrado, meus pés tortos e dedos iguaizinhos aos seus. Pegue meu baço, pâncreas, artéria e até o tendão.

Só já é seu o meu coração.

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Carta para o leito 550-2

Não sei se eu já te contei isso, pai, mas eu falo de você para todo mundo.

Minhas antigas chefes, se pudessem, teriam te contratado. Para elas, a minha capacidade de trabalho sob pressão e qualidade nos textos era reflexo direto do exemplo que você é para mim.

Talvez elas tivessem razão. Você sempre foi meu parâmetro. Minha melhor e pior crítica. Se você achasse que tava bom, nem me importaria ser demitida. Você é minha maior fonte de aprovação e satisfação profissional.

Você é famoso lá no México, pai. O Ernesto contava suas histórias para todo mundo. O fato de você ter levado os vovôs para conhecerem a Europa foi tema de milhares de encontros, jantares e cafés.

Você é o herói de muito mexicano que tenta ser empresário, ter negócio próprio e sobreviver a isso. Meus amigos todos te enviaram ‘saludos’. Sem nem te conhecer, eles já te idolatram.

É incrível como você é mesmo assim.

E eu adoro ser parecida a você. Foi de você, certamente, que herdei o gosto por livros, por séries policiais, por filmes clássicos e músicas variadas.

Talvez eu tenha até talento para vendas, quem sabe.

Sabe que quando eu era mais nova, às vezes questionava a mamãe. Não entendia porque depois de tanto tempo de reclamações sobre suas madrugadas boêmias e seu vício pelo trabalho ela ainda estava com você.

Hoje é muito claro que suas qualidades ultrapassam e muito os seus defeitos e entendo que ela não conseguiria era ficar longe de suas piadas repetidas, suas reformas em cima da hora, suas teorias, anedotas e experiências.

Eu não conseguiria ficar longe de suas aulas de matemática, palestras sobre atualidades e explicações sobre a vida.

Às vezes, os momentos conturbados servem para gente pensar nesse tipo de coisa, sabia?

Eu tenho certeza que se você parar para pensar na sua vida até hoje, vai dar valor para coisas que nem imaginava. E pode crer que, pode ser, seja só isso que você precisa para, depois, viver bem melhor.

A gente vai fazer algumas mudanças de vida, pai, pode crer. Mas, mais uma vez, a gente tem a prova de que somos mesmo uma família perfeita. Eu sei que nenhum de nós nunca estará sozinho. Não importa o quê.

E, por enquanto, isso já basta.

Te amo.

Beijos,

Filhinha.

Despedida

Mesmo tendo certeza absoluta de que havia tomado a decisão certa, sentei na cama e chorei.

Simplesmente chorei toda a saudade que tinha sentido de minha família. Chorei a força que tive que ter, as barras que tive que enfrentar e as escolhas que tive que fazer.

Chorei a saudade que eu ainda ia sentir, chorei os amigos que fiz e o mundo de coisas que aprendi. Chorei o amor que aprendi a controlar, os lugares que conheci e a felicidade que senti.

Chorei o prazer de morar em cidade pequena, chorei o saludo do outro lado da calle, chorei as botas que tive que deixar pelo peso da mala.

Chorei o fato de agora de verdade me conhecer. Chorei as pessoas incríveis que levo comigo. Chorei a parte enorme de mim que aqui eu deixo.

Chorei pela pinche distância geográfica. Pela dor e pelo prazer de viajar. Chorei primeiro por ter decidido ficar mais. Depois, por decidir ficar menos.

Chorei a família postiça que tive e as maluquices que vivi. Chorei a minha independência e a minha responsabilidade. Chorei em espanhol, em coreano, chinês, alemão e inglês. Só não chorei em português porque a volta é a única certeza que agora eu tenho.

Chorei por estar feliz. Pelo sentimento de dever mais que cumprido. Chorei por não deixar mais nenhum assunto mal acabado e pelo difícil que isso foi.

Chorei porque muitos choraram por mim. Por me sentir querida. Por amar.

Chorei porque já não choro por qualquer coisa, mas porque essa situação, de verdade, pedia todas as lágrimas e soluços e desespero. Chorei porque valeu e valeu muito a pena.

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