Busca

Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

setembro 2013

Proibido chorar em horário de trabalho

Me deu uma vontaaade de chorar. Mas era segunda-feira e o trabalho com menos uma jornalista na redação estava fervendo.
O mundo do mercado imobiliário me esperava, com suas grosserias e esperas infinitas ao telefone, com má vontade de responder e-mails e respostas curtas que não ajudavam a preencher as inúmeras páginas de inúmeras matérias que eu tinha que escrever.
Fui pro banheiro e derramei algumas lágrimas.
Mas nem isso deu tempo de fazer direito. Jornalista toma muito café, você sabe, acompanhado de um cigarrinho. E aí toma-se água também. E aí se vai muito ao banheiro.
Saí e 
fingi que os olhos vermelhos eram maconha. Menos desagradável que chorar a ausência de um ente querido e amargar o clima de pré-fechamento.
A vida não deixa nem a gente sofrer direito. E isso é o que mais conforta.

Escena

Agarrou afoita e cuidadosamente as mãos enrugadas pela velhice.

Envolveu as costas curvadas como quem ajeita o travesseiro antes de dormir: tarefa simples, porém essencial para o descansar pleno.

Apertou um lábio contra o outro como quem segura a fala, controlando a emoção. Amor, dor, saudade e solidão.

Fez tudo sem desgrudar da mão.

No soltar do abraço, o olhar de compreensão, compaixão e desespero. Perdão. Pelo sofrimento que a vida lhe causou. Mesmo a culpa não sendo sua.

Um sinto muito que, se falado, não seria do coração.

Pensou em ficar, mas e o caminho?

No adeus sentiria dor, mas mesmo assim partiria.

A serenidade que transmitia, nem deus entendia.

Aceitou. Balançou a cabeça. Concedeu. E seguiu.

Faz um tempo, eu quis fazer uma canção pra você viver mais

Eu tinha um medo incondicional de que alguma coisa, um dia, acontecesse com você. Dizem que, quando nascemos, no fundo sabemos o nosso destino e as dores pelas quais passaremos.

Se for verdade, talvez fosse só minha memória irracional me dizendo para passar muito tempo com você. E eu passei.

Quantas e tantas vezes enfrentei o congestionamento ao seu lado, quando poderia ter ficado em casa, assistindo a qualquer coisa besta na TV. Escolhia o lado dos homens na mesa enorme de almoços com família e amigos só para ouvir suas histórias e suas opiniões divertidas e interessantes sobre qualquer tema. Você sempre soube falar sobre qualquer coisa. Isso era realmente impressionante.

Eu nunca gostei de discutir e contar como foi o meu dia. Mas pra você, eu contava. Você sabe.

Só para deitar ao seu lado na cama eu deixava de assistir ao Saia Justa e assistia ao jornal da Globo News. Isso estragava minhas quartas-feiras, mas não tinha o menor problema.

Frequentei churrascos chatos, festas sem graça e passei fins de semana mal humorada. Se pudesse, voltava atrás e colocava um sorriso no rosto em cada uma dessas ocasiões. Mas, pensando bem, você não ligava muito e uma das melhores lembranças que tenho é de quando você me mandava morder o próprio dedo para aliviar a TPM ou a bravice sem fundamento.

Eu dava socos em sua barriga grandona e a chamava de Sofia. Era nossa brincadeirinha. Você só devolvia o soco quando estava meio de saco cheio, mas nunca me machucava.

Suas palavras de ordem ao me mandar segurar o choro quando algo não me agradava, me prepararam pra vida e eu acho que aprendi até que bem, porque só tenho chorado às vezes. Mas lavo o rosto, levanto o queixo e sorrio, só por saber que era isso que você me mandaria fazer.

Eu não vou deixar ninguém nunca gritar comigo, assim como você não deixava. E quando for dar bronca nos meus filhos, não alterarei meu tom de voz, exatamente como você fazia. Esse seu método funciona. Sei disso porque, mesmo tendo cara de bravo, você era muito respeitado e muito, muito querido.

Eu falava de você para todo mundo. Hoje, é difícil ter que usar verbos no passado. Então me calo.

Uma vez, conversei com você o caminho inteiro de volta pra casa, pra você não ter sono. A gente sempre lembrava desse dia e das perguntas bestas que eu inventei. Acho que aí já estava me preparando para ser jornalista.

Às vezes escrevo um poema e me sinto feliz por pensar que você ficaria orgulhoso. Você se impressionou quando descobriu que eu tinha esse dom. Eu nem sabia que tinham feito sentido aquelas palavras sobre fumaça e lágrimas que postei no blog só por falta de opção. Mas você era meu melhor crítico e, por isso, ainda me arrisco em rimas pobres que, às vezes, representam todo o sentimento do mundo.

Já não escrevo sobre amor. Sei lá, ficou obsoleto e medroso esse meu viéz. Você me mandou virar a página e estou lendo novos livros. Em espanhol. Acho que a gente não teve a chance de conversar em espanhol. Você já estava muito fraco e, eu, com muito medo.

Fui medrosa, me desculpe. O medo e sei lá mais o quê, me fizeram ficar longe de sua doença. Nosso último abraço foi aquele do aeroporto. Acho que te abracei umas três vezes. Se pudesse, ficaria naquele abraço para sempre. Era o seu melhor. Era o meu melhor.

Suas últimas palavras foram “vai lá, filhinha”, e eu fui. Você mandou. E eu obedeci. Queria que você tivesse me pedido para ficar. Queria ter ficado.

Voltei e você já não era você. Eu te olhava e já tinha saudades do cara barrigudo e sério, por quem eu tinha o meu maior amor. Mas eu te reconheci nos dentes brancos e certinhos e lindos. Sua arcada dentária era incrível. Te reconheci na pinta da mão esquerda e nas próprias mãos, ainda pesadas e morenas. Te reconheci mais ainda na voz e quando você fez comentários sobre política. Quando você achou legal as cartas que eu li pra você na revista, aí eu tive certeza que era você. E sorri. O amor, ah, o amor ainda estava lá.

Você lembrou do meu aniversário e achou que fiz surpresa ao te visitar naquele leito. Eu estava sempre ali. E sempre vou estar.

À noite, depois do trabalho, durante anos, eu deitava ao seu lado, me aproximava, me aconchegava em sua barriga e, com o ouvido espremido em seu peito, dizia “olha, pai, seu coração está batendo”. “Ainda, bem, né?”, você respondia. “Pai, você está quente”, eu comentava. “Que bom! Significa que estou vivo! Imagina se não estivesse?!?”. E eu nunca, nunca imaginava.

De: Marvin Spock Para: Marília

Marília,

meu mar, minha ilha.

Esta já é a vigésima nona carta que te mando. O dobro da minha idade. Números redondos que não existem. Não desistirei, porém.
Há pessoas que cruzam nossos caminhos por algum nobre motivo que o destino só nos deixa perceber depois de calejados o suficiente para não enlouquecer.

De meu amor por Marília, cariño, me fez nascer livros e textos e entendo que não entenda essa minha vida de escritor.
É muito verbo, advérbio…é muito sujeito que não você.
É muito personagem dividindo contigo minha cama. Minha lama. Minha trama.

É tanta vírgula pra você colocar o ponto final. Me dê a dúvida de uma reticência, ao menos. Ao decidir pela partida, Marília, minhas palavras se escrevem em branco em um texto de cegos que só eu consigo entender.

Mas o texto não me abandona. Ele sempre vai me preencher. Mesmo que por você, Marília, meu destino lírico seja morrer.

Sem poréns, mas com amor,

Marvin Spock.

Keep moving forward

Essa dor silenciosa é a pior dor que tem. É morrer por dentro cada dia um pouquinho. A cada semáforo vermelho, a cada chá preto, a cada nova música.

É estar mal o tempo todo em que se está bem. É não desmoronar quase nunca, desmoronando quase sempre. É buscar preencher o vazio com qualquer coisa que sabemos que não vai funcionar. Mas mesmo assim o fazemos.

É uma dor que dói tanto, que já não dói nunca. É um bichinho que incomoda o tempo todo, cutucando vezes sutil, vezes fortemente. É um desgosto constante de viver uma vida sem mais significado.

É ir à missa só por saber que ficar bravo com Deus não vai mudar a luta. Nada mudará.

É se esforçar para fingir viver, quando a alma está em frangalhos, moída, destroçada e ferida, detonada e jogada na cama, assistindo a qualquer episódio de Friends enquanto o corpo esboça falsos sorrisos ao tomar um cafezinho sem açúcar com qualquer pessoal.

A vida é o teatro que precisa rodar quando toca o despertador, abrindo a cortina do dia. O espectador só paga se gostar do show – que não pode parar. Cruel e simples. Um normal injusto pelo qual todo mundo, um dia, tem que passar. É assim, só assim, que a vida continua. E a gente carrega o guarda-chuva furado, enquanto o sol não brilha.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑