Faz um tempo, eu quis fazer uma canção pra você viver mais

Eu tinha um medo incondicional de que alguma coisa, um dia, acontecesse com você. Dizem que, quando nascemos, no fundo sabemos o nosso destino e as dores pelas quais passaremos.

Se for verdade, talvez fosse só minha memória irracional me dizendo para passar muito tempo com você. E eu passei.

Quantas e tantas vezes enfrentei o congestionamento ao seu lado, quando poderia ter ficado em casa, assistindo a qualquer coisa besta na TV. Escolhia o lado dos homens na mesa enorme de almoços com família e amigos só para ouvir suas histórias e suas opiniões divertidas e interessantes sobre qualquer tema. Você sempre soube falar sobre qualquer coisa. Isso era realmente impressionante.

Eu nunca gostei de discutir e contar como foi o meu dia. Mas pra você, eu contava. Você sabe.

Só para deitar ao seu lado na cama eu deixava de assistir ao Saia Justa e assistia ao jornal da Globo News. Isso estragava minhas quartas-feiras, mas não tinha o menor problema.

Frequentei churrascos chatos, festas sem graça e passei fins de semana mal humorada. Se pudesse, voltava atrás e colocava um sorriso no rosto em cada uma dessas ocasiões. Mas, pensando bem, você não ligava muito e uma das melhores lembranças que tenho é de quando você me mandava morder o próprio dedo para aliviar a TPM ou a bravice sem fundamento.

Eu dava socos em sua barriga grandona e a chamava de Sofia. Era nossa brincadeirinha. Você só devolvia o soco quando estava meio de saco cheio, mas nunca me machucava.

Suas palavras de ordem ao me mandar segurar o choro quando algo não me agradava, me prepararam pra vida e eu acho que aprendi até que bem, porque só tenho chorado às vezes. Mas lavo o rosto, levanto o queixo e sorrio, só por saber que era isso que você me mandaria fazer.

Eu não vou deixar ninguém nunca gritar comigo, assim como você não deixava. E quando for dar bronca nos meus filhos, não alterarei meu tom de voz, exatamente como você fazia. Esse seu método funciona. Sei disso porque, mesmo tendo cara de bravo, você era muito respeitado e muito, muito querido.

Eu falava de você para todo mundo. Hoje, é difícil ter que usar verbos no passado. Então me calo.

Uma vez, conversei com você o caminho inteiro de volta pra casa, pra você não ter sono. A gente sempre lembrava desse dia e das perguntas bestas que eu inventei. Acho que aí já estava me preparando para ser jornalista.

Às vezes escrevo um poema e me sinto feliz por pensar que você ficaria orgulhoso. Você se impressionou quando descobriu que eu tinha esse dom. Eu nem sabia que tinham feito sentido aquelas palavras sobre fumaça e lágrimas que postei no blog só por falta de opção. Mas você era meu melhor crítico e, por isso, ainda me arrisco em rimas pobres que, às vezes, representam todo o sentimento do mundo.

Já não escrevo sobre amor. Sei lá, ficou obsoleto e medroso esse meu viéz. Você me mandou virar a página e estou lendo novos livros. Em espanhol. Acho que a gente não teve a chance de conversar em espanhol. Você já estava muito fraco e, eu, com muito medo.

Fui medrosa, me desculpe. O medo e sei lá mais o quê, me fizeram ficar longe de sua doença. Nosso último abraço foi aquele do aeroporto. Acho que te abracei umas três vezes. Se pudesse, ficaria naquele abraço para sempre. Era o seu melhor. Era o meu melhor.

Suas últimas palavras foram “vai lá, filhinha”, e eu fui. Você mandou. E eu obedeci. Queria que você tivesse me pedido para ficar. Queria ter ficado.

Voltei e você já não era você. Eu te olhava e já tinha saudades do cara barrigudo e sério, por quem eu tinha o meu maior amor. Mas eu te reconheci nos dentes brancos e certinhos e lindos. Sua arcada dentária era incrível. Te reconheci na pinta da mão esquerda e nas próprias mãos, ainda pesadas e morenas. Te reconheci mais ainda na voz e quando você fez comentários sobre política. Quando você achou legal as cartas que eu li pra você na revista, aí eu tive certeza que era você. E sorri. O amor, ah, o amor ainda estava lá.

Você lembrou do meu aniversário e achou que fiz surpresa ao te visitar naquele leito. Eu estava sempre ali. E sempre vou estar.

À noite, depois do trabalho, durante anos, eu deitava ao seu lado, me aproximava, me aconchegava em sua barriga e, com o ouvido espremido em seu peito, dizia “olha, pai, seu coração está batendo”. “Ainda, bem, né?”, você respondia. “Pai, você está quente”, eu comentava. “Que bom! Significa que estou vivo! Imagina se não estivesse?!?”. E eu nunca, nunca imaginava.

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5 comentários sobre “Faz um tempo, eu quis fazer uma canção pra você viver mais

  1. Ana, não consegui engolir o choro ao ler esse texto. Eu sempre gostei do seu pai sem tê-lo conhecido. Gostava do que você me contava dele, ainda que não estivesse falando exatamente dele. Era o seu ombudsman pessoal. Fiquei triste em saber que ele se foi, mas ele deixou em você uma voz que você vai ouvir a sua vida toda. Com carinho, Velma

  2. Carol, não pude deixar de relembrar muitas cenas com seu pai, principalmente no último churrasco quando ele me serviu costelinhas de porco e eram regadas com mel, quando disse que não podia ele me respondeu, ” só uma não te fará mal”. Ele tinja razão, não fez e eu me deliciei muito comendo. Foi muito bom. Fui covarde, não tive coragem de visita-lo, mas não me arrependo pois agora quando lembro dele só me vem coisas boas. Você tem razão ele era um lutador e vencedor. E ele viveu Carol e curtiu a vida muito ao lado de vocês e era visível o amor que tinha por vocês.
    Minha querida fique com Deus. Beijos!

  3. Carol o legado que ele te deixou não tem preço! O carinho, o amor, a dedicação está no amor e nos ensinamentos,;;;; nas críticas, nas broncas que ele como pai te pode oferecer.
    É Difícil perder nosso chão, nosso mestre! sei o que é isso mas sei também que podemos agradecer por termos tido a oportunidade de termos uma PAi com todas as letras maiúsculas possíveis. ❤

  4. Belíssimo texto, somente quem teve a oportunidade de ter tido um pai maravilhoso e guerreiro sente o cheiro desses momentos. Me identifiquei pq perdi o meu melhor amigo também depois de segura-lo com força aqui na terra. Parabéns pelo texto e pela oportunidade de ter tido um grande patriarca.

  5. Lembranças……….Palavras….Momentos…É o que nos resta,quando perdemos alguém que Amamos…….Dor que aperta o peito…………….Sorrisos,Lágrimas….Amor………Saudades muitas Saudades………..

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