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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

outubro 2013

Minha pauta, minha vida

Jornalista vai ao supermercado com caderninho e credencial. Interroga o moço das frutas, relata na mente o preço do feijão e tem ideia de pauta enquanto checa a quantidade de gordura saturada na tabela nutricional do miojo. Jornalista vai à loja da Oi e implora por um plano em que vai pagar as calças, mas que promete um 3G que funcione. “Moço, eu trabalho com isso”, explica, justificando a grosseria. Jornalista se sente mal ao escutar música na rádio em vez de acompanhar o jornal da noite. Mas jornalista também precisa estar a par das músicas da moda, não é mesmo? Jornalista encontra outro jornalista e reclama. Mas jornalista fica orgulhoso quando vai preencher a qualquer ficha que inclui a profissão como item obrigatório. “Jornalista” – fala e levanta o queixo, meio metido. Afinal, jornalista é bicho que se acha. Acha que sabe de tudo e sabe mesmo. Porque pergunta. É curioso. Homem jornalista é o único que pede informação no trânsito. Pode até fingir que não é que está perdido, só precisa investigar uma pauta. Jornalista sonha com emprego que inclua viagens. Jornalista quer liberdade de horário. Mas nunca desliga. O celular. A TV. A mente. Jornalista que é jornalista sabe de tudo um pouco e não se especializa em quase nada. Sabe falar sobre assuntos diversos e usa exemplos que começam com “uma vez eu fiz uma matéria” para comprovar sua maestria no tema, deixando no chinelo qualquer não-jornalista presente. Jornalista pode ser burro de pedra, mas sempre é considerado inteligente pelos amigos. “sou jornalista”, diz. Sem ninguém nem perguntar. Jornalista fala com gente diferente todo dia. Descobre novos temas toda semana. Tem orgulho de sair da redação às cinco da manhã em dia de fechamento. Posta nas redes sociais, afirma todo orgulhoso “de quinta, não posso, é fechamento” e chega em casa e reclama. Vida de jornalista é a perfeita versão do “entre tapas e beijos” profissional. E lendo este texto, todo jornalista se sentiu feliz e fracassado. Orgulhoso e confuso. Inteligente e tapado. Todo jornalista, lendo este texto, se sentiu jornalista. E amou.

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Mesmo sem sentido

Já não encontro com amigos. Estou cansada. Dá preguiça de ir longe. Ou perto. Só preparar mesmo alguma coisinha em casa. Mas vai até que horas? Eu acordo cedo. Cedo? Eu tenho é que madrugar para dar conta de fazer exercício físico. Sabe como é…qualidade de vida. Qualidade de quê? Isso não pode ser vida.
A gente tem muito papo para colocar em dia, mas puta que pariu, você mora em São Bernardo. E eu tô sem habilitação. Poderia dormir na tua casa. Mas e a minha cama? Virei velha, preciso do meu travesseiro. Cadê a menina que dormia até em pedra? Voou. Morreu. Talvez nunca tenha existido. Às vezes eu acho que fui adolescente só por obrigação. Mas que minha vontade sempre foi ficar em casa assistindo ao Jô e comendo doce.
Aí não sabe porque ficou gorda. E reclama. E acorda às 5h da manhã para queimar a banha. E fica cansada. E não sai com os amigos. Porque tem sono. E reclama. E tudo virou longe, mesmo quando perto. É tudo muito congestionado. E perigoso. De que perigo a gente foge? Quer risco maior que não viver a porra da vida? A gente ganha dinheiro. Dorme oito horas por noite. Corta o carboidrato da dieta. Corre. E pra quê? Pra quem? Pra mim é que não é. E você? Pra quem que é? Quem é? Quem quer ser? É essa mesmo a vida que queria estar levando?
Vivos por fora e mortos por dentro. Caminhando sem querer estar. Chutando pedras no caminho. E que caminho… Cadê a paisagem? Muda então, faz alguma coisa, vai vender coco na praia. Se joga no mar. Pra limpar. Limpa a casa, sacode a poeira, varre a imensidão de desgosto, que o gosto, eu juro que vem. Come um brigadeiro de vez em quando. Pastel. Guaraná. Feijoada. Capricha na salada também. O que é que tem?
E corra sim. Mas saia. Divirta-se. Toma um energético. Que o sono a gente compensa na eternidade. E enquanto estamos vivos. Enquanto não somos mortos. Enquanto não nos matamos. Vivamos.

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