Jornalista vai ao supermercado com caderninho e credencial. Interroga o moço das frutas, relata na mente o preço do feijão e tem ideia de pauta enquanto checa a quantidade de gordura saturada na tabela nutricional do miojo. Jornalista vai à loja da Oi e implora por um plano em que vai pagar as calças, mas que promete um 3G que funcione. “Moço, eu trabalho com isso”, explica, justificando a grosseria. Jornalista se sente mal ao escutar música na rádio em vez de acompanhar o jornal da noite. Mas jornalista também precisa estar a par das músicas da moda, não é mesmo? Jornalista encontra outro jornalista e reclama. Mas jornalista fica orgulhoso quando vai preencher a qualquer ficha que inclui a profissão como item obrigatório. “Jornalista” – fala e levanta o queixo, meio metido. Afinal, jornalista é bicho que se acha. Acha que sabe de tudo e sabe mesmo. Porque pergunta. É curioso. Homem jornalista é o único que pede informação no trânsito. Pode até fingir que não é que está perdido, só precisa investigar uma pauta. Jornalista sonha com emprego que inclua viagens. Jornalista quer liberdade de horário. Mas nunca desliga. O celular. A TV. A mente. Jornalista que é jornalista sabe de tudo um pouco e não se especializa em quase nada. Sabe falar sobre assuntos diversos e usa exemplos que começam com “uma vez eu fiz uma matéria” para comprovar sua maestria no tema, deixando no chinelo qualquer não-jornalista presente. Jornalista pode ser burro de pedra, mas sempre é considerado inteligente pelos amigos. “sou jornalista”, diz. Sem ninguém nem perguntar. Jornalista fala com gente diferente todo dia. Descobre novos temas toda semana. Tem orgulho de sair da redação às cinco da manhã em dia de fechamento. Posta nas redes sociais, afirma todo orgulhoso “de quinta, não posso, é fechamento” e chega em casa e reclama. Vida de jornalista é a perfeita versão do “entre tapas e beijos” profissional. E lendo este texto, todo jornalista se sentiu feliz e fracassado. Orgulhoso e confuso. Inteligente e tapado. Todo jornalista, lendo este texto, se sentiu jornalista. E amou.

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