Quando soube que teria a possibilidade de folhear páginas e páginas daquelas belas, inteligentes, pensadas e sutis combinações de palavras, enlouqueci.
Torci muito pelo projeto, pelo autor, pelo talento que viraria sucesso.
Mas quando a espera ganhou vida, nome, cor, textura e preço, eu estava longe.
“Você pode comprar pela internet”, me diziam. Mas os correios do México são terríveis e só deixaram passar cartas de minha mãe porque o santo dela é forte e porque recado de mãe (convenhamos) é até pecado barrar.

No Brasil, tentei a livraria mais próxima. “Não tem, senhora!”
Entrei no site. Saí do site. Entrei no site. Saí do site. Entrei no site.
“Para efetuar a compra, clique aqui.” Cliquei. “Opção inválida.”
“Como assim, meu senhor?”
A máquina nunca me respondeu.
Deixei para lá. “Depois eu vejo isso”, pensei.
“Só vende na livraria tal”, me contaram. Fui.

– Ixi, senhora, não tem.
– E não dá para ver no sistema se tem em outra loja?
– Ixi, senhora, o sistema não está funcionando para ver outra loja.
– E se eu der uma volta? Você acha que ele volta a funcionar em quanto tempo?
– Ixi senhora…
– Ixi digo eu, moço.
– Mas a senhora pode verificar pela internet e efetuar a compra por lá mesmo. Chega direitinho na sua casa.

Lá vem essa tal de internet de novo. É cômodo e prático, eu sei. Mas a felicidade de comprar algo é exatamente trocar, naquele imediato momento, notas e moedas por algo palpável, tangível. Algo meu. Novo. Lindo. Escolhido a dedo.

Quer coisa mais chata que ver o saldo da conta diminuído e em vez de poder aproveitar o desejado produto, ganhar a necessidade de conferir o itinerário da encomenda? Eu, hein.

– Bom dia, moço.
– Oi, senhora. Achou o que procurava lá na internet?
– Não achei não, moço, Hoje o sistema está funcionando?
– Tá sim!
– Então checa aí pra mim!
– Olha, tá dizendo que na av. Paulista tem…
– Que horas fecha lá?
– Ixi, senhora, fecha daqui a 20 minutos. Não dá tempo de chegar lá não.
– E não dá para reservar o livro pra mim?
– Ixi…

Sábado de chuva. Avenida Paulista. Conjunto Nacional. 10h da manhã.

– Oi, moça. Bom dia. Vem cá, tem esse livro por aí?
– Diz aqui que o livro chegou em agosto e que ainda tem um exemplar, mas não sei se tem não. Vou procurar.
– Por favor!

A moça sumiu, evaporou. Mergulhou no mundo das prateleiras ordenadas com e sem sentido. Na minha prateleira particular, imaginária, seções de emprestados, presentes, comprados, favoritos, abandonados, na fila para serem lidos e aqueles que nunca mais serão folheados.
Caminhei junto a ela. Capas, fontes, letras, desenhos, fotos, grossos, finos, feios, bonitos, best sellers, dietas da moda, dor de amor, finais felizes, autoajuda, empreendedorismo, qualquer coisa for dummies, clássicos.

Na ponta dos dedos, diferentes texturas. Som de silêncio e procura por títulos. Olhos atentos. Cheiro de páginas e páginas e páginas. Velhas. Novas. Brancas. Amareladas.

Novidades em formato de sacolas, marcadores, canetas e cadernos.

No caminho, crianças entretidas com figuras. Jovens sentados em aconchegantes poltronas. Fones no ouvido. Livros nas mãos. Cheiro de café, atmosfera de leitura. Pessoas interessantes, interessadas. Felizes. Experiência que não dá para trocar por virtual nenhum. Por mais fácil que seja.

– Acabou.
– Como assim, “acabou”? Você não falou que no sistema dizia que tinha um?
– Pois é.
– Pois é o quê?
– O sistema dizia. Mas é que a internet não funciona direito às vezes…
– É mesmo? Não me diga!!! Moça, sério mesmo, eu preciso desse livro!
– Que cor é a capa?
– Vermelha!
– Ok!
– Ou azul!
– …
– Acho que é meio bege. Com azul. E vermelho. E tem meio que uma figura. Sabe, meio assim…! Ah, talvez seja meio roxa!
– Senhora…
– Quer que eu procure na internet?
– ….
– Não é esse não, moça, olha aí o título. Esse título é ruim, né?
– Acho bonitinho.
– …
– É esse?
– não!
– Ai, moça. Sinto muito.
– Não, não. Tudo bem! Acho que vou comprar pela internet mesmo.

Fiquei um tempo ainda por ali. Meio cabisbaixa. Vencida. Tentando achar algo empolgante para iniciar uma nova leitura enquanto esperaria pelos correios. Malditos correios. Presente de amigo secreto talvez. Quem sabe receitas diferentes ou até mesmo aquele volume gigante, teórico e chato, porém útil…

– Acheiii!
– …
– Moça! Moça! Achei!! Tava escondidinho lá! Mas tá aqui, pronto pra levar para casa!

Nem acreditei. Folheei. Abracei. Quase beijei a capa que, de fato, é meio bege, meio cinza, meio azul, meio verde, meio vermelha, meio roxa e que tem uma figura mesmo, meio assim…!

– É débito, moço, por favor!
– Ixi! Estamos sem sistema, não tá aceitando cartão.

A compra “foi efetuada com sucesso” da maneira mais arcaica possível. Na loja física. Com dinheiro vivo.
Agora, só falta o autógrafo.

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