Você adorava quando eu conseguia expor de maneira engraçada e vezes sarcástica o cotidiano de nossa família maluca. O texto ficava ainda melhor quando não envolvia o seu lado, pegando no pé apenas do estresse da mamãe, da mania de exagero dos Flore e da bagunça em que esta combinação de pessoas resultava.

O “Então é Natal“, intitulado assim em sua homenagem – pelo ódio mortal que tinha da tão famosa música gravada pela despenteada cantora – era o nosso favorito.

Este ano não teve Simone. 

Cogitei seriamente a possibilidade de usar sua ausência para enfim me rebelar e deixar para trás a milenar tradição de fazer amigo secreto, trocar presentes e comer pernil mesmo sem gostar.
Meu plano era me enfiar debaixo das cobertas, assistir a qualquer filme em espanhol – para não perder a audição idiomática, como você me ensinou – e esperar passar.

Este ano não teve amigo secreto.

Todo o dinheiro de toda lembrancinha carésima que compraria para cada tia que certamente não gostaria do equivalente a meias dos presentes de natal, eu doaria. Você tinha uma veia social. E pensei em passar este dia distribuindo presentes, ouvindo histórias de velhinhos em casas de repouso, ninando alguma criança sem pais. Tentando ser uma pessoa melhor.

Este ano não teve abraços.

Seria egoísta, porém, enaltecer minha dor e quebrar expectativas de pessoas queridas que em mim depositavam a esperança de um fim de ano alegre, apesar dos poréns. Não seria justo, não é mesmo?
Contanto que não houvesse discursos ou choradeira, umas doses de tequila me poderiam ajudar.

Este ano não teve bebedeira.

“Suck it up”, você diria. Posso te escutar me mandando segurar o choro, levantar a cabeça e fazer o que eu tinha que fazer. E eu fiz, eu juro. Me peguei olhando para os lados de vez em quando e em alguns raros momentos pude jurar que você estava lá. Te procurei para contar as pérolas que a vó soltou na mesa e o porquê de a mamãe estar roxa de tanto rir.

Este ano não teve você.

Só era triste mesmo quando não entendiam minhas piadas. Quando não pude usar de tanto sarcasmo e quando roubar a comida antes da hora perdeu a graça quando feito sozinha. Alguns momentos foram divertidos, você sabe. Esta família te arrancava gargalhadas gostosas. Que fizeram falta.

E teremos que nos acostumar com isso. 

Sobrevivemos, olha só! E pediremos ao Papai Noel para que cada ano seja mais fácil, menos sofrido e mais engraçado, bem daquele jeito que você gostava. Faltará para sempre a melodia cantada sem ritmo, o abraço apertado à meia noite e o “feliz natal, filhinha” tão gostoso de ouvir. Os tios perderão belas histórias e piadas velhas porém igualmente engraçadas contadas entre uma e outra taça. A “sogra” já não será perturbada com pedidos do tipo “da próxima vez quero camarão na moranga” ou “faltou farofa neste frango”, bem típicos de seu amor apache. Dependeremos de GPS para chegar ao almoço do dia 25 e serei obrigada a encontrar um braço fraternal e paciente para me ajudar a andar de salto ladeira abaixo, como você tão gentilmente fazia. Haverá sempre um vazio e sobrará sempre cerveja, pedaços de pernil e uma cadeira.
Para sempre insubstituível.