A vida é feita de sonhos, concluí ainda quando pequena. Mesmo depois dos dez anos de idade, ainda me imaginava professora, dando a mão a pequenos alunos imaginários no caminho do recreio; por vezes me imaginei atriz, protagonizando novelas de fantasias, com vestidos de princesa e cenários de brinquedos. Mesmo sem a voz, sempre quis ser cantora, ovacionada pela multidão e sempre com uma caneta na mão, para eventuais autógrafos. Tampouco tenho a altura, mas já me imaginei recebendo prêmio de melhor jogadora de basquete. Adivinhe só? também não tenho os pés, mas pode crer que fui bailarina convidada várias vezes em Lago dos Cisnes, apresentado com louvor no escuro do meu quarto. Discursei Oscar de melhor coadjuvante, Emmy, Grammy e Tony. Sempre agradecendo àqueles que acreditaram em mim. Até recebi elogios de traje de sabonete e penteado de shampoo importado, tudo no chuveirinho do banheiro.
Na hora do vestibular, até pensei em obstetrícia, pelo milagre do nascimento. Mas o ser jornalista veio com o tempo e a constatação da falta de talento em qualquer outra área que não fosse ler, muito mais que escrever.
Meus sonhos se fizeram impossíveis no mundo real – como tem que ser, para quase todo mundo.

Menos para ela.

Bela foi pediatra desde pequena.
Não precisava de estetoscópio para enxergar sintomas malucos. Por isso soube escolher a dedo. Amigos, ela tem os melhores. Os amores, não foram muitos, mas certeiros. Quase sempre duradouros e, agora, juro que aposto em casamento.
Bela é bela mesmo. Talvez até mais por dentro do que por fora, se isso for possível.
Pode ser por isso que São Paulo inteiro dobrava e desdobrava seus horários, acordava cedo, desmarcava compromissos e faltava no trabalho quando a menina de risada gostosa trazia todo seu sotaque de interior para um fim de semana, com ela, completo.
Os aniversários de Bela sempre foram os melhores. Os conselhos também. Foi com ela que dividi segredos de encontros e primeiros, segundos e décimos amores. Bela é do tipo médica de nascença com quem qualquer um poderia tirar dúvidas de amor e dor, principalmente de barriga, quando a risada se fazia incontrolável bem no meio da aula de química.
Foi para Bela que contei minhas melhores piadas e com ela fiz as melhores teorias de que, se tudo desse certo, o mundo certamente terminaria numa quinta-feira de beijo roubado bem embaixo da amoreira do jardim.
Bela é do tipo de memória que mesmo longe, segue viva. Amiga cuja distância nunca foi motivo de estresse. Bela é frescor: ventilador em dia de verão, episódios de Friends em domingo de preguiça e gargalhada em happy hour às sextas-feiras.
Bela é tirar uma soneca depois do almoço, entradas grátis para ir ao cinema e nariz de palhaço para descontrair o trânsito afobado. Viagem sem roteiro, comer sem engordar, poder de tudo experimentar. Essa é ela.
Professora, atriz e cantora. Ganhadora de prêmios, jogadora. Bailarina e escritora.
Uma adulta para sempre criança. Sonhadora.
Desbravadora e vencedora.
Se medicina é profissão bonita, então é só nela que Bela seguiria seu caminho.
Nunca desconfiei que seria diferente. Mas agora é oficial: com talento e maestria, o lugar de Bela é mesmo na pediatria.
Sortudos serão aqueles, baixinhos e grandalhões, carrancudos e brincalhões, meigos e bobalhões, crianças em sua essência, que passarão, quando em gripe ou qualquer ocorrência, pelo lindo caminho da dra. Alegria.
Com ela confiaria deixar cérebro, fígado e meu pulmão.
Já é dela, afinal, o ombro, os ouvidos, o abraço e toda minha gratidão.
E para os novos passos que seguirá nesta profissão, bom…só hei de deixar apenas uma recomendação: siga sempre o seu coração.