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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

março 2014

Gratidão

Me lembro muito bem daquela tarde, em que sentei, trêmula, na varanda.
Abri o refrigerante ruim, sem marca, sem gás, sem gelo.
Bebi como se fosse rum.
Acendi seu cigarro forte, mentolado, demasiado.
Fumei o maço todo.
Perdi o pudor, a noção de hierarquia, deixei também o respeito por ti e minha dignidade lá fora, esperando no carro, tirando um cochilo.
Você não ligou para minha loucura, mas me passou o telefone. Considerou toda a fragilidade e me fez enfrentar.
Meu maior medo. Meu futuro. Meu erro. Minha tortura. Meu amor.
Você me avisou, eu sei, alertou. Quase me chacoalhou. Mas sabia que não era hora.
Eu não estaria mesmo preparada.
Mas te ouvi, sim, eu juro.
Levei em consideração até os xingamentos. Eram coerentes, pois.
E mereci.
Estava fora de mim, você sabe.
Uma menina. De coração fora do peito. Nas mãos. De outrem.
Quando me curei, estive reclusa. Precisei, entende? De um tempo de solidão e
chibata.
Burra.
Sua voz estava lá. Me ajudou a fazer casquinha da ferida aberta. Pomada cicatrizante.
Nunca te agradeci.
Mas segui nutrindo carinho, meio de longe e muito intenso.
Só quem caiu muitas vezes sabe que as mãos que ajudam a levantar se limitam a poucos tombos. Você, porém, foi meu guindaste. E retroescavadeira – quando tudo que precisava era seguir na fossa, para pensar. Me castigar.
Sorrio agora, meio dolorida, porém inteira.
E estarei sempre aqui, pode não parecer.
Comigo você pode contar. Não por te dever um monte, não. Por querer, de fato, ajudar. Por me preocupar.
A um toque de celular, uma meia mensagem, almoço, jantar.
Amigo assim é para vida toda, você sabe.
Pode crer, sempre que precisar, saberemos como nos encontrar.

Referências

Xeretando velhos e-mails – veja bem, o tipo de coisa que não se pode fazer depois da meia-noite, muito menos em dias propícios a procurar no youtube a cara feia do Abujamra (se é que é assim que se escreve) declamando qualquer coisa – que fosse batatinha quando nasce se esparrama (ninguém me convence do “espalha a rama”, coisa mais feia) pelo chão – daquela maneira só dele.
Procurava eu, na verdade, a versão original de um dos textos – publicados neste blog onde escrevo agora – modificados por consideração. (“eu protegi teu nome por amor”, diria cazuza) e terminei a viagem (e a manhã) em baús encontrados bem más allá do continente.
Perdeu-se a terra, o chão.
Em tempos aqueles toda palavra era feita para mim, para nós.
Cada trançar de frases, cada desdobrar de verbos, a escolha perfeita de pontuação.
E o sorriso idiota no rosto.
Aquele que ainda tanto temo e que nunca mais, nem em tempos de dor de amor aguda e (obrigada, devo dizer, ao menos) material para tanto texto drama queen, ousou esboçar-se em minha face outra vez.
Ver poesia em tudo era voar o tempo inteiro, suscetível a qualquer rajada de vento, vendaval.
Para dizer “oi” escrevia-se “O Livro do Desassossego” quase, eu te juro.
Eis o mal do relacionamento à distância. Do meu relacionamento à distância.
O meu escrever que não sabe ser conciso – que se médico fosse, receitaria apenas amor em letras legíveis, mesmo quando em estado terminal.
Era um e-mail de desculpa, que virou e-mail de promessa, que virou obra de terror. E a literatura do perdão foi que perdeu-se, e até hoje não sei quem devia o quê, a quem.

Já empurrando com a barriga, sabendo da decisão errada de caminhos tortuosos e medo do ponto final, encontrei em Marshall Berman minha resposta, minha vida. E a enviei por e-mail, inteira. Que era para ver se o alguém me salvara. E morri.
“Os acontecimentos se precipitam; o filho de Gretchen morre, ela é lançada no cárcere, julgada como assassina e condenada à morte. Em uma derradeira cena de forte comoção, Fausto vai à sua cela no meio da noite. De início, ela não o reconhece. Toma-o pelo carrasco e, num gesto insano mas terrivelmente apropriado, oferece-lhe o próprio corpo para o sacrifício derradeiro. Ele lhe jura seu amor e tenta convencê-la a fugir com ele. Tudo pode ser arranjado: ela necessita apenas caminhar até a porta e estará livre. Gretchen se comove, todavia não se moverá. Alega que o abraço de Fausto é frio, que ele em realidade não a ama. E há alguma verdade nisso: embora ele não queira que ela morra, tampouco gostaria de voltar a viver com ela.” – Tudo que é sólido desmancha no ar.

[assim mesmo, grifado]

E o passado se desfaz também assim, veja só. Ainda há coerência na luz enxergada com lentes nebulosas, tateando o chão do inferno, revestido de pedregulhos pontudos. Perigoso.
Faz-se febre no rosto novamente. Pega fogo. Queima. Alucino.
Goethe mais uma vez faz sua mágica.
Era só uma lembrança, menina, calma.
A janela abre. O corpo respira.
Fecha o computador e vai dormir.
De novo. E para sempre.
Pelo menos dessa vez.

Fundidos

*texto baseado em lembranças sonadas de uma vida inventada e no romance Febre, de Renato Essenfelder – cuidado, leitores: pode conter spoilers

……..

Talvez ele tenha se matado, pensei.
Talvez fosse eu, naqueles tempos, tivesse me matado também.
Senti vergonha, porém.
Confesso que também cheguei aos mais de quarenta graus, que perambulei cabisbaixa, moribunda.
Também repassei, como fosse um filme, todos os detalhes, pequenos diálogos, grandes mentiras.
Homem suporta menos a dor.
Não fosse fêmea, provável também implorasse.
Implorei, talvez.
Tentei, tentei.
Marquei encontros em lugares nossos. Praças.
Usei de um tudo de desculpa.
Fui embora chutando pedrinhas. Descalça.
Tentei odiar também, assim como ele, igualzinho.
A profissão. A arrogância. O sabe tudo. Porque sabia mesmo. A inteligência.
Mesmo usando eu palavras difíceis também. Também soberba.
Maldisse com todo desdém que cabe apenas àqueles profundamente apaixonados.
Amar é isso. É odiar até as melhores qualidades.
Por saudade.
E foi isso que fez.
Que quase fiz. Que fazemos todos, oras bolas.
Porque o amor não é apenas bom quando correspondido, não, veja bem.
A dor de amor é um cutuco na alma, é febre que pulsa sem motivo algum. São veias que queimam a qualquer indício de passo, pensamento ou respirar.
Sofrimento são palavras bonitas descritas com raiva de afeto. Desilusão é vida. São sentidos aguçados, agudos, momento único paradoxal aos pequenos e raros segundos de plena felicidade, quando nunca se é mais intenso.
Não deslizar aos prantos no box do banheiro, não debulhar-se em posição fetal, não sujar de rímel o travesseiro, meu amigo, é apenas sobreviver à mediocridade do cotidiano.
As pílulas, então, pequenas bolinhas de salvação, seriam talvez a maneira de seguir remoendo, revivendo, delirando. A única maneira de seguir filosofando. Com maestria.
O jeito de continuar escrevendo.
Sofrer por amor é dominar um tema.
Mas entregar-se pode ser loucura.
Loucura é comprar anel, é optar por ficar.
Nunca seja a que ama mais, aconselha minha avó.
Mas somos teimosos. E buscamos a dor.
Sabíamos que o não seria não.
Perguntamos pelos motivos errados, preocupados com a ínfima possibilidade de um sim.
Errôneo.
E caímos porque é só assim que funcionamos.
Perdidos. Metades. Feridos. Dramáticos.
Em busca de cura que leve nome próprio, que mascare a ressaca com mais um porre.
Que é para levantar do fundo do poço. E começar tudo de novo.

 

Vaidade

Ele era namorado, ficante, rolo e peguete de uma amiga. Então acho que isso não conta muito. Mas foi a primeira vez que fui reconhecida como a autora do Escrevo, depois apago. A tiete parecia eu. Sorriso de orelha a orelha, sem conseguir esboçar uma reação madura e segura de quem escreve de nariz empinado e joga pro mundo, pro mundo ver se quiser e se não quiser também, tudo bem.
Havia recebido, sim, e-mails, comentários e até uma carta (pasme!), mas mais uma vez, é cibernético, sem cara, sem expressão. Poderia muito bem ser meu pai, eterno amante enquanto durou de meus trabalhos, fosse qual fosse, tema por tema. Poderia muito bem dar uma incentivada, mostrar que fazia alguma diferença aquele tempo todo de solidão e coque, pijama e coca, cigarro e computador, debulhando dedos, teclados barulhentos e frases incompletas.
Todo aquele tempo bolando nomes, criando personagens, eu mesma, eu-lírica. O outro (nunca sei, já nem reconheço, tão misturado e confuso). Tanto sofrimento mantendo aquela dor, aquele momento agudo de dor (deleite) em que o texto flui sozinho, em que o escritor, na verdade, nada mais é do que o Chico Xavier de si próprio. Nada baixa, não tem espírito, não tem além. É muito simples, apenas transborda. E para nas linhas, parágrafos, diálogos.
E só passa quando dá sono, só melhora quando vomitado em letras MAIÚSCULAS, vezes minúsculas sem ponto sem nada nem vírgula que não dá tempo de digitar tanto sentimento ponto final para quê se é de reticência que é feita a vida
E para quem? Não tinha, lembra? Era só mesmo um diário mais maduro, talvez ainda meio adolescente quando batente da mesma tecla, quando reciclando o mesmo tema e espremendo o tecido de sangue. Até a última gota.
Mesmo assim. Desabafo. Que precisa sair e sair e sair e navegar pela rede sem fim, globalizada. Que às vezes eu juro que recebo visitas até da China, vejam só.
E de inocente e despretencioso passou a ter seguidores e alguns likes e compartilhamentos e tudo isso que a rede permite. Temas em comum, assuntos que interessam. Palavras que poderiam ser as suas (como não pensei nisso antes? – pensam alguns. poxa, eu poderia ter escrito isso – comentam outros). Identificação.
E o ego infla, claro, me estão lendo!!??!!
Literalmente.
Meu todo, vezes repartido, vezes amassado, vezes derrotado, exagerado. Vezes outro. Mas sempre eu.
A ideia de me deparar com a capa de meu livro ainda não escrito tapando a cara de transeuntes no transporte público faz sorrir até o pulmão, que respira mais aliviado todo o peso do sentimento guardado.
E o caso, peguete, rolo, namorado, ficante e amante da amiga virou pó, sujeira, besteira e muita lágrima. E eu nunca mais encontrei o cidadão, que não sei se ainda navega por essa página tão pouco atualizada.
E nem se fala mais dele não, aquele tipo de nome que vira até palavrão. Insulto. (o você-sabe-quem). E tenho raiva, é lógico, porque magoar amiga é magoar duas vezes. Mas ainda sorrio, confesso. Talvez seja até traição, quem sabe.
No meu íntimo, lembro-me. “Você é a menina do Escrevo”, assim, próximo, conhecido desconhecido de velhos tempos, outros carnavais.
Ambiente escuro e úmido e alto, som muito alto. E muita cerveja. E eu me lembro até o gosto. Guinness. Lembro até o cheiro. Batata. Com bacon (talvez) e cheddar (com certeza). Não na nossa mesa, ao lado. Cigarro. Risadas. Abafado e aconchegante. Tão longe, como se fosse hoje.
Sozinha, chego ao gozo. Do ego. Reconhecimento. E mais um motivo. Para seguir escrevendo.

La primera vez que María vio el mar

Nota: texto feito durante minha estadia no México. Não reparem em erros ortográficos espanhóis. Eu tava aprendendo, gente. 😉

Hacía dos años que yo estaba trabajando en el periódico. Como era el comienzo de mi vida profesional, no podía elegir el horario de trabajo o salir de vacaciones en fechas importantes como navidad o año nuevo.

Así, mis colegas de trabajo eran como mi segunda familia. Yo no convivía siempre con las mismas personas, porque en nuestro trabajo debemos salir mucho, para hablar con personas en diferentes lugares y horarios.

Había solamente una persona que yo encontraba todos los días, sin excepción. A veces yo llegaba después de las tres de la mañana solamente para entregar un artículo a mi jefe. A veces llevaba mis pijamas abajo de la ropa formal porque estaba durmiendo cuando me avisaban que debería ir al periódico por motivos como la muerte de alguien importante o algún accidente grave que yo tenía que cubrir.

A veces yo estaba enojada, cansada o tenía mucho sueño y ella podía sentir que necesitaba un café, unas galletas o solamente un abrazo y una sonrisa.

María tenía más de 60 años, nació en Bahia – estado de Brasil conocido por su alegría y bellas playas – y heredó el buen humor de su pueblo, pero, desafortunadamente, fue a la ciudad de São Paulo cuando era muy niña y todavía no había tenido la oportunidad de poner los piés en la arena.

Yo siempre pensaba en deseos y sueños como algo que no podría alcanzar. Soñaba en pisar en la luna, casarme con Brad Pitt, vivir en un castillo o ganar mucho dinero durmiendo. Creo que estuve atormentada por días cuando supe que el gran sueño de María no era viajar por el mundo, comer sin engordar o vivir para siempre. María soñaba conocer el mar.

Hacía 20 años que ella trabajaba limpiando el piso del periódico. Hacía dos años que María me alegraba con su buen café y gentileza.

La playa estaba muy cerca de nuestra ciudad, no más que dos horas en coche. “El sueño más sencillo de realizar”, dijo mi amigo y también periodista, Caetano.

No tuvimos duda, el próximo miércoles, a las seis de la mañana, María y yo esperábamos Caetano en frente del periódico para irnos a la playa.

El camino fue muy divertido con María contando sus historias de cuando era niña. Cantamos, nos reímos y estuvimos muy contentos por todo el tiempo.

Pero todo cambió cuando empezamos a ver el mar por las ventanas. Ella estaba inquieta, nerviosa y parecía que tenía mucho miedo. Cerró sus ojos y dijo que no quería ver hasta que hubiéramos llegado.

Caetano y yo estábamos confundidos y un poco preocupados. No sabíamos lo que pasaba con María. Seguimos el camino y al estacionar el coche al borde de la playa, la señora salió como una niña, corriendo más rápido que sus piernas podrían aguantar.

De sus ojos escurría tanto agua como lo que había en el mar. No le importaba la bolsa o la ropa mojada. No le importaba las personas que la miraban sin entender.

Era una niña de 60 años que jugaba con el juguete más lindo que pudiera tener. Yo no podía moverme, la imagen de María brincando las olas era demasiada emoción para una simple mañana de miércoles.

Era más impresionante que el azul brillante que llevaba el cielo.

Estuve parada por muchos minutos cerca del coche, mirando a María. Creo que vi algunas lágrimas en los ojos de Caetano, pero él dice (hasta hoy) que sus ojos son muy sensibles a la sal y a la humedad del mar.

No me gusta la arena, pero en ese día me encantó construir castillos con María.

En la tarde, íbamos a regresar para empezar a trabajar a las siete de la noche, pero María nos dijo “ahora ya puedo morir”, nos abrazó y nos dio las gracias.

No pudimos salir de allá. Decidimos inventar una enfermedad y nos quedamos en la playa para comer mariscos frescos. El jueves fuimos a trabajar sanos, contentos y más morenos.

El jefe no nos dijo nada, solamente sonrió y asentó la cabeza, contento por recibir galletas y café de María, que no pudo quitar la gran sonrisa de la cara por todo el día.

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