Ele era namorado, ficante, rolo e peguete de uma amiga. Então acho que isso não conta muito. Mas foi a primeira vez que fui reconhecida como a autora do Escrevo, depois apago. A tiete parecia eu. Sorriso de orelha a orelha, sem conseguir esboçar uma reação madura e segura de quem escreve de nariz empinado e joga pro mundo, pro mundo ver se quiser e se não quiser também, tudo bem.
Havia recebido, sim, e-mails, comentários e até uma carta (pasme!), mas mais uma vez, é cibernético, sem cara, sem expressão. Poderia muito bem ser meu pai, eterno amante enquanto durou de meus trabalhos, fosse qual fosse, tema por tema. Poderia muito bem dar uma incentivada, mostrar que fazia alguma diferença aquele tempo todo de solidão e coque, pijama e coca, cigarro e computador, debulhando dedos, teclados barulhentos e frases incompletas.
Todo aquele tempo bolando nomes, criando personagens, eu mesma, eu-lírica. O outro (nunca sei, já nem reconheço, tão misturado e confuso). Tanto sofrimento mantendo aquela dor, aquele momento agudo de dor (deleite) em que o texto flui sozinho, em que o escritor, na verdade, nada mais é do que o Chico Xavier de si próprio. Nada baixa, não tem espírito, não tem além. É muito simples, apenas transborda. E para nas linhas, parágrafos, diálogos.
E só passa quando dá sono, só melhora quando vomitado em letras MAIÚSCULAS, vezes minúsculas sem ponto sem nada nem vírgula que não dá tempo de digitar tanto sentimento ponto final para quê se é de reticência que é feita a vida
E para quem? Não tinha, lembra? Era só mesmo um diário mais maduro, talvez ainda meio adolescente quando batente da mesma tecla, quando reciclando o mesmo tema e espremendo o tecido de sangue. Até a última gota.
Mesmo assim. Desabafo. Que precisa sair e sair e sair e navegar pela rede sem fim, globalizada. Que às vezes eu juro que recebo visitas até da China, vejam só.
E de inocente e despretencioso passou a ter seguidores e alguns likes e compartilhamentos e tudo isso que a rede permite. Temas em comum, assuntos que interessam. Palavras que poderiam ser as suas (como não pensei nisso antes? – pensam alguns. poxa, eu poderia ter escrito isso – comentam outros). Identificação.
E o ego infla, claro, me estão lendo!!??!!
Literalmente.
Meu todo, vezes repartido, vezes amassado, vezes derrotado, exagerado. Vezes outro. Mas sempre eu.
A ideia de me deparar com a capa de meu livro ainda não escrito tapando a cara de transeuntes no transporte público faz sorrir até o pulmão, que respira mais aliviado todo o peso do sentimento guardado.
E o caso, peguete, rolo, namorado, ficante e amante da amiga virou pó, sujeira, besteira e muita lágrima. E eu nunca mais encontrei o cidadão, que não sei se ainda navega por essa página tão pouco atualizada.
E nem se fala mais dele não, aquele tipo de nome que vira até palavrão. Insulto. (o você-sabe-quem). E tenho raiva, é lógico, porque magoar amiga é magoar duas vezes. Mas ainda sorrio, confesso. Talvez seja até traição, quem sabe.
No meu íntimo, lembro-me. “Você é a menina do Escrevo”, assim, próximo, conhecido desconhecido de velhos tempos, outros carnavais.
Ambiente escuro e úmido e alto, som muito alto. E muita cerveja. E eu me lembro até o gosto. Guinness. Lembro até o cheiro. Batata. Com bacon (talvez) e cheddar (com certeza). Não na nossa mesa, ao lado. Cigarro. Risadas. Abafado e aconchegante. Tão longe, como se fosse hoje.
Sozinha, chego ao gozo. Do ego. Reconhecimento. E mais um motivo. Para seguir escrevendo.

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