Me lembro muito bem daquela tarde, em que sentei, trêmula, na varanda.
Abri o refrigerante ruim, sem marca, sem gás, sem gelo.
Bebi como se fosse rum.
Acendi seu cigarro forte, mentolado, demasiado.
Fumei o maço todo.
Perdi o pudor, a noção de hierarquia, deixei também o respeito por ti e minha dignidade lá fora, esperando no carro, tirando um cochilo.
Você não ligou para minha loucura, mas me passou o telefone. Considerou toda a fragilidade e me fez enfrentar.
Meu maior medo. Meu futuro. Meu erro. Minha tortura. Meu amor.
Você me avisou, eu sei, alertou. Quase me chacoalhou. Mas sabia que não era hora.
Eu não estaria mesmo preparada.
Mas te ouvi, sim, eu juro.
Levei em consideração até os xingamentos. Eram coerentes, pois.
E mereci.
Estava fora de mim, você sabe.
Uma menina. De coração fora do peito. Nas mãos. De outrem.
Quando me curei, estive reclusa. Precisei, entende? De um tempo de solidão e
chibata.
Burra.
Sua voz estava lá. Me ajudou a fazer casquinha da ferida aberta. Pomada cicatrizante.
Nunca te agradeci.
Mas segui nutrindo carinho, meio de longe e muito intenso.
Só quem caiu muitas vezes sabe que as mãos que ajudam a levantar se limitam a poucos tombos. Você, porém, foi meu guindaste. E retroescavadeira – quando tudo que precisava era seguir na fossa, para pensar. Me castigar.
Sorrio agora, meio dolorida, porém inteira.
E estarei sempre aqui, pode não parecer.
Comigo você pode contar. Não por te dever um monte, não. Por querer, de fato, ajudar. Por me preocupar.
A um toque de celular, uma meia mensagem, almoço, jantar.
Amigo assim é para vida toda, você sabe.
Pode crer, sempre que precisar, saberemos como nos encontrar.

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