Toca o despertador às 4h30 da manhã, Eliene Reis Aguiar está acostumada a acordar cedo. A baixinha, como é conhecida – por conta de seus 1,5m de altura -, trabalha como empregada doméstica há 38 anos e já sabe que às 8h, impreterivelmente, o café da patroa tem que ser servido.
Um entra e sai na cozinha, lava roupa, estende o lençol e alimenta o cãozinho de estimação ao som da rádio Nativa FM e apenas ao regar os vasos na sala, cantarolando, é que se dá conta de que eu a estou esperando há aproximados 50 minutos. Seu jeito sério, de poucos amigos, contrasta com a sorridente senhora, de aparência sofrida, que há pouco se entretia entre uma e outra tarefa diária. Antes mesmo de ser questionada, diz ser tímida e não saber se comportar diante de pessoas com quem nunca conversou e já vai logo avisando que não vai responder todas as perguntas.
A conversa, porém, flui naturalmente e a desconfiada baixinha revela sua história de uma maneira emocionante e encantadora.

– A senhora nasceu em que cidade da Bahia?
– (Silêncio…) Na verdade, a minha cidade não tem nem nome. Porque era um sítio e não tinha nome. Ainda hoje, não tem nome. A minha cidade, acho que nem existe no mapa.

Eliene, filha número cinco de uma família de doze irmãos, deixou seus pais e sua cidade sem nome ainda quando criança. Veio com a tia Fátima para a grande cidade de São Paulo, em busca de uma vida melhor, “como se diz por aí”.
Sua infância foi marcada por não ter existido. Trabalhou na roça e aos onze anos de idade passou a “servir”, como diz, em casas de família. Afirma que se pudesse mudar alguma coisa de seu passado, gostaria de estudar. Mas por nunca ter tido a oportunidade, não pensou em outra profissão a fizesse feliz.

Hoje é casada, muito bem casada, há 30 anos e mãe de três filhos – dois casados e um solteiro, que dá muito trabalho. Lamenta por não ter conseguido pagar a faculdade de nenhuma das crias. “Meu filho mais novo é professor, não fez faculdade, mas fez magistério. Pelo menos já tá melhor que eu né? Agora a esperança tá nos três netos, mas só Deus sabe se é possível. Cada vez a coisa fica mais difícil né?”.

Já mais tranqüila e menos desconfiada, Eliene garante que sua sorte foi encontrar patroas muito generosas e amigas, pois “vida de limpeza não é fácil não” e tenta se contentar com a vida que leva. “Sonho, a gente sempre tem né? Mas eu acho que o que tinha que acontecer, já aconteceu”.

– A senhora tem alguma lembrança da sua infância? Alguma situação que te marcou?
– Olha, uma coisa que me marcou muito foi que eu morria de medo dos patrões. Quando eu ia trabalhar, tinha muita menina assim do nordeste né? E eu morria de medo de algum patrão bater na minha porta quando fosse meia-noite. Dormia em quarto separado, mas sabe como são essas coisas né? Graças a Deus, não aconteceu nada, mas passei muita noite acordada, com medo.

– E de alguma história engraçada, a senhora se lembra?
– Engraçada mesmo, acho que nenhuma.

Hesitante, Eliene confessa que se pudesse, por apenas um dia, inverter os papéis com a matriarca da família para a qual trabalha, tentaria entender melhor a situação dos funcionários e ajudaria com o que fosse possível.

– E um sonho?
– Pposso ser sincera? Eu queria mesmo era ter um casão como os que eu trabalhei, mas não acredito em milagres.

Ao ser questionada sobre o futuro, a baixinha não sabe bem o que a espera – acha que nunca terá a oportunidade de se aposentar, mas espera poder descansar, pra compensar o tanto que trabalhou na vida.
Enquanto isso, segue a rotina, de segunda a sexta-feira trabalhando e de fim de semana aproveita pra tomar umas cervejas e dar umas risadas nos churrascos dos amigos vizinhos, lá em Carapicuíba, onde mora, “porque ninguém é de ferro né?”.

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