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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

maio 2014

Vou morrer de saudades

mas vá embora, sim, que eu trato de te encontrar no caminho.

—–

Passei uma vida inteira, entre idas e vindas, sem saber exatamente qual era meu sentimento por ela.
Somos muito diferentes, não há como negar. 
Eu sou mais discreta, contida e paciente.  Sou previsível, não me afeto muito por críticas ou elogios – apesar de considerá-los, bem lá no fundo. 
Não faço amizade com tanta facilidade,  não faço questão de ser simpática e fico muito na minha, muitas vezes sem ser notada.
Ludmilla não. Ludmilla é um furacão. Chora inconsolavelmente na frente do injusto vice-prefeito, ri alto em momentos impróprios e pelo jeitão estabanado, escrachado e autêntico, é conhecida por todos, pelo bem e pelo mal.
Intensa, esquentada, apaixonada. Pelo trabalho, pela vida e pelo Victor.

Ludmilla veste a camisa. Dos amigos e da profissão. É jornalista assumida e orgulhosa. Acredita que pode mudar o mundo e conseguir o celular direto do Obama. E consegue mesmo, tamanha teimosia.
Trabalhar a seu lado me rendeu momentos de desespero (ela fala muito alto e bate no meu joelho operado) e alegria (ela me acalma quando fico nervosa e confia em mim para ler parágrafos – cada vez melhores e mais leves).
Ser sua amiga me abriu caminhos para uma vida muito mais solta, mais confiante e mais feliz.
Lud sempre me pediu que escrevesse um texto sobre ela e nunca consegui. (não conta para ninguém, mas a pressão me travou. afinal, seria horrível não atingir suas expectativas – principalmente depois de tantos elogios, tão exagerados).
Com base em sua admiração genuína e cativante – que faz sorrir em dias difíceis – pode me sobrar, de fato, talento, é claro. Mas sempre me faltarão palavras para definir e descrever o fenômeno Lud.
São borboletas no estômago, dançar no meio da rua, ouvir música no volume máximo, chorar assistindo ao voo dos passarinhos e se emocionar com um simples abraço.
Nunca entenderei porque o destino se encarregou de insistir tanto em nosso cruzar de caminhos.  Mas a ele serei eternamente grata.
Hoje Ludmilla desbrava uma nova trilha, cheia de novidades e desafios e emoções.
É até ridículo querer desejar boa sorte, porque Lud pavimenta sua própria estrada, agarra a oportunidade e não deixa a pauta, a vaga, o prefeito e muito menos o presidente escapar.
Lud almejou, mereceu e conquistou um novo reinado. Lá vai ela arrasar em outras terras, atazanar a vida de milhares de outros jornalistas e fontes, que vão amá-la e odiá-la, vendo-a subir cada vez mais alto, mais brilhante, mais Lud.
E eu vou estar aqui, sempre por perto, sempre observando e sempre, sempre sem saber definir o sentimento que tenho por ela – até o fatídico dia de fechamento em que buscarei à minha esquerda um motivo para não perder as estribeiras e deparar-me-ei com uma cadeira preenchida por quem não conhece as piadas internas, complexas explicações com um só olhar e ajuda mútua que faz toda a diferença, vazia. Só aí saberei que é tristeza, saudade, melancolia, tudo junto e misturado com muito orgulho, torcida e alegria.
E aos que vão ocupar meu posto diário de colega, confidente, amiga e revisora, lhes alerto: esta será uma jornada emocionante, uma montanha russa indescritível, incomparável, memorável e perturbadora.
Mas que (vai por mim!) vale e vale muito a pena, por ser, ao final, apenas muito encantadora.

De mentirinha

Sento para fazer xixi e finjo ser entrevistada por Marília Gabriela (a versão do GNT). Uso tailler estilo Sandra Bullock em “A Proposta”, estou gata. Cabelos soltos e cacheados. Morena. Bem maquiada, porém suave. Iluminada. Linda.
Falo com graciosidade e de maneira extremamente natural. Divago sobre meus grandes feitos, documentários, matérias, prêmios e sobre o quão incrível sou.
A entrevista é maravilhosa. Acredite ou não, Gabi (como a chamo) escutou belíssimas coisas sobre minha pessoa.
Levanto e entro no banho. O entrevistador agora é Jô Soares. E eu sou demais. Viajei o mundo e relatei tudo aquilo de mais maravilhoso em vídeo, em livro, em blog. em tudo. Porque eu sou Incrível. Jô ri de todas as minhas piadas, resolve me entrevistar por dois blocos seguidos e a plateia toda grita em coro quando é anunciado meu momento de partir. Prometo voltar e nos abraçamos.
Me enxugo enquanto disponho um pouco do meu tempo para conversar com Ellen (essa mesmo, a DeGeneres). Em inglês. Sou roteirista de seriados americanos. E tenho uma ONG, claro. Meu último namorado foi Leonardo DiCaprio, mas no momento estou dando um tempo, fechada para balanço, casada com meu magnífico e super bem feito trabalho. Não será difícil, porém, voltar à vida amorosa. Todos me querem.
Oprah, mesmo aposentada, me entrevista e se espanta ao ver que apesar de ter sido considerada a mulher mais bonita do ano sou muito inteligente e de verdade me preocupo com a paz mundial.
Não preciso nem comentar o quão galanteador foi David Letterman, não?
Termino de me vestir agradecendo a Jimmy Fallon pelo excelente programa que gravamos juntos. Aceno para a plateia, mando beijos, distribuo autógrafos, tiro fotos.
Fecho a porta do banheiro.
Deito na cama, de pijama, quentinha, e durmo feliz.

Desastre natural

Você foi terremoto, seguido de tsunami, seguido de furacão – que era para ter certeza que havia despedaçado toda minha cidade de vidro.
Não deu tempo de evacuar prédios, casas, artérias e corações.
Não deu tempo de nada.
Correu quem tinha esperança, mas caiu na primeira pedra, primeiro telefonema, primeiro rosto que parecesse com o seu.
Era genocídio sem fim. De todos os meus neurônios, sentimentos, de toda minha vida inventada.Com você.
Não foi fácil, meu caro.
Escutar teu nome.
Conviver com tua sombra.
Ler meus textos. Seus.
Exilei-me, experimentei, refugiei emoções. Controlei.
Chorei quando precisava. Sim.
E perdi a maior parte de mim.
Mudei. Pintei. Cortei.
Trabalhei.
Internei. UTI.
É ridículo contar o tempo que demorou para respirar sozinha novamente.
Desliguei os aparelhos.
E sobrevivi. Pisando em ovos. Catando conchinhas na areia.
Mas aliviei. O pulmão e a cabeça. E cresci.
Hoje ainda chuto pedrinhas da avalanche causada pelo nosso primeiro impulso.
Mantenho intacto o guarda-chuva que me foi emprestado nos dias de sol e tirado em dias de chuva.
Já não me importo com cabelos molhados.
Ainda teimo em colar antigos vasos quebrados.
O velho jogo de tentativa e erro. e erro. e erro. e acerto.
Só assim reconstrui meu império.
Pequeno, mas só meu.
E no caminho de tijolos dourados (acredite!), ainda encontro caquinhos.
Mas ando com vassoura e sacos de lixo sempre à mão.
Que é para jogar fora o que ainda insiste de você.
Para longe de mim.

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