Você foi terremoto, seguido de tsunami, seguido de furacão – que era para ter certeza que havia despedaçado toda minha cidade de vidro.
Não deu tempo de evacuar prédios, casas, artérias e corações.
Não deu tempo de nada.
Correu quem tinha esperança, mas caiu na primeira pedra, primeiro telefonema, primeiro rosto que parecesse com o seu.
Era genocídio sem fim. De todos os meus neurônios, sentimentos, de toda minha vida inventada.Com você.
Não foi fácil, meu caro.
Escutar teu nome.
Conviver com tua sombra.
Ler meus textos. Seus.
Exilei-me, experimentei, refugiei emoções. Controlei.
Chorei quando precisava. Sim.
E perdi a maior parte de mim.
Mudei. Pintei. Cortei.
Trabalhei.
Internei. UTI.
É ridículo contar o tempo que demorou para respirar sozinha novamente.
Desliguei os aparelhos.
E sobrevivi. Pisando em ovos. Catando conchinhas na areia.
Mas aliviei. O pulmão e a cabeça. E cresci.
Hoje ainda chuto pedrinhas da avalanche causada pelo nosso primeiro impulso.
Mantenho intacto o guarda-chuva que me foi emprestado nos dias de sol e tirado em dias de chuva.
Já não me importo com cabelos molhados.
Ainda teimo em colar antigos vasos quebrados.
O velho jogo de tentativa e erro. e erro. e erro. e acerto.
Só assim reconstrui meu império.
Pequeno, mas só meu.
E no caminho de tijolos dourados (acredite!), ainda encontro caquinhos.
Mas ando com vassoura e sacos de lixo sempre à mão.
Que é para jogar fora o que ainda insiste de você.
Para longe de mim.

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