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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

junho 2014

Correio (des)elegante

Dá um friozinho na barriga. Liga pra amiga. Sorri. Dá pequenos pulinhos sem sair do lugar.
Ele respondeu.
E ela, prestes a abrir a mensagem, o coração e a vida, trava.
Os dedos, em posição de ataque ao mouse, param ainda no ar. endurecem. entristecem. perdem toda aquela euforia incontida de quando digitavam a pergunta fatídica.
Ele respondeu.
O sentimento era o mesmo de outrora e apesar de uma nova história vinha recheado de caquinhos de uma devastação anterior. Ainda em recuperação.
A ansiedade vira angústia. A vontade vira desespero.
Ele respondeu.
O olho não quer ler. O cérebro não quer saber e a alma tem medo de cair, de novo.
Até o corpo responde. Borboletas no estômago passam a dar dor de barriga. A cabeça lateja, a pele arrepia. Chega a doer.
Ele respondeu.
É dor do passado. É trauma antigo. É como quem perde uma perna mas a continua sentindo, doendo, coçando, esticando e dobrando.
É fantasma. É real.
Ele respondeu.
E ela não quer mais saber. Não quer entender, não quer responder.
A vida se ajeita agora, só agora. Ainda não se pode arriscar. Acertar, errar, se perder e afundar.
Ainda não dá para amar.

Remetente

tanta carta escrita, bilhete esboçado, coração rasgado.
nunca nunca enviado.
parece engasgado. empacado. doído.
enquanto não despachado, arrasado, carcomido.
sem coragem, amarela na gaveta aberta em madrugadas solitárias.
quer criar asas, quer sair, quer sentir.
ser sentida.
carta não lida é carta morta. carta triste. carta vazia.
vestida de amor, ódio, desespero. vezes nua, vezes muda, vezes linda.
sempre profunda.
por significar o mundo.
bem no fundo.
do coração de alguém.
corre carta, corre longe.
encontrar seu dono.
vai ser lida por outrem.

I carry your heart. I carry it in my heart.

“estou em crise existencial”, eu dizia, agarrando uma almofada, com um biscoito na mão.
era hora de voltar a ter cinco anos, agarrar-me naquela enorme barriga morena, dormir escutando as batidas de seu coração e saber que tudo, tudo daria certo no final.
“para de chorar”, era a primeira coisa que ele me dizia. às vezes isso me fazia chorar mais, mas na maioria das vezes meu orgulho de filha durona me ajudava a engolir as lágrimas.
“qual é o problema?”, perguntava ainda agindo indiferente, mirando fixamente a televisão e coçando a perna ou o braço.
ainda com voz trêmula eu começava. divagava. divagava. divagava. meditava até. usava tons agudos quando estava realmente perdida, incomodada, estupefata.
ele não me deixava continuar. “fica calma e deixa de resmungar. não quero problemas, quero soluções”.
parece ríspido dito assim, de sopetão. mas era tudo técnica, estudada com maestria. e me fazia crescer. respirava. mantinha o foco. engrossava a voz.
“preciso de um plano”, ele dizia. “dê-me um plano. qualquer um.”
and he meant it.
poderia ser o mais loucos dos loucos. poderia incluir uma passagem só de ida para a China. dar a volta ao mundo em três dias. mudar de sexo. virar monge. morar em marte.
não importava. com tanto que tivesse um caminho, uma meta, que desse vontade de viver, conhecer, explorar, evoluir.
“te deixo trabalhar em uma locadora se isso incluir assistir a todos os filmes para aprender a fazer um roteiro e usar o dinheiro do mísero salário para fazer um curso que te dê contatos, que te leve para frente”.
foi seguindo esses conselhos e olhando em seus olhos castanhos e absurdamente redondos que conclui tantas etapas e vivi tantas aventuras e aproveitei tantas oportunidades.
e se nada desse certo eu ainda poderia voltar e agarrar uma almofada e deitar na barriga gordinha e escutar a batida forte daquele coração enorme.
queria ter só uma mãozinha, pai, só uma piscadela, um último conselho.
mas dou uma coçada em minha própria barriga gordinha, me dou uma bronca desprovida de sentido e medito a fim de escutar as fortes batidas de meu próprio coração, que é para poder olhar para frente e fazer aquilo que você sempre me ensinou: desvendar um plano e seguir adiante.

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