“estou em crise existencial”, eu dizia, agarrando uma almofada, com um biscoito na mão.
era hora de voltar a ter cinco anos, agarrar-me naquela enorme barriga morena, dormir escutando as batidas de seu coração e saber que tudo, tudo daria certo no final.
“para de chorar”, era a primeira coisa que ele me dizia. às vezes isso me fazia chorar mais, mas na maioria das vezes meu orgulho de filha durona me ajudava a engolir as lágrimas.
“qual é o problema?”, perguntava ainda agindo indiferente, mirando fixamente a televisão e coçando a perna ou o braço.
ainda com voz trêmula eu começava. divagava. divagava. divagava. meditava até. usava tons agudos quando estava realmente perdida, incomodada, estupefata.
ele não me deixava continuar. “fica calma e deixa de resmungar. não quero problemas, quero soluções”.
parece ríspido dito assim, de sopetão. mas era tudo técnica, estudada com maestria. e me fazia crescer. respirava. mantinha o foco. engrossava a voz.
“preciso de um plano”, ele dizia. “dê-me um plano. qualquer um.”
and he meant it.
poderia ser o mais loucos dos loucos. poderia incluir uma passagem só de ida para a China. dar a volta ao mundo em três dias. mudar de sexo. virar monge. morar em marte.
não importava. com tanto que tivesse um caminho, uma meta, que desse vontade de viver, conhecer, explorar, evoluir.
“te deixo trabalhar em uma locadora se isso incluir assistir a todos os filmes para aprender a fazer um roteiro e usar o dinheiro do mísero salário para fazer um curso que te dê contatos, que te leve para frente”.
foi seguindo esses conselhos e olhando em seus olhos castanhos e absurdamente redondos que conclui tantas etapas e vivi tantas aventuras e aproveitei tantas oportunidades.
e se nada desse certo eu ainda poderia voltar e agarrar uma almofada e deitar na barriga gordinha e escutar a batida forte daquele coração enorme.
queria ter só uma mãozinha, pai, só uma piscadela, um último conselho.
mas dou uma coçada em minha própria barriga gordinha, me dou uma bronca desprovida de sentido e medito a fim de escutar as fortes batidas de meu próprio coração, que é para poder olhar para frente e fazer aquilo que você sempre me ensinou: desvendar um plano e seguir adiante.

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