é uma dor tão filha da puta, mas tão filha da puta que avisa que vai doer.
começa com uma pontada. são espasmos espalhados no tempo. contrações.
e vão ficando mais fortes e mais intensas e mais doloridas. como facadas. pequenos pinos, talvez, que cutucam, cutucam, cutucam.
lâminas cada vez mais pontudas e afiadas. dores cada vez mais agudas.
um incômodo que, quase imperceptível, fica lá, o dia todo, todo dia.
ameaça aumentar.
e aumenta, aumenta, aumenta.
vira irritação constante, sensação de estar lá, dentro, fundo.
as mãos tentam tocar o peso da dor. esfregam o peito, enxugam a testa, em atos frágeis e desesperados, coçam a garganta. com delicadeza os dedos se apertam contra a palma das mãos, suadas.
o estômago é sempre a próxima vítima. arde. não digere. não aceita. nem alimento nem bebida. vomita. a abstinência funciona como tratamento quimioterápico.
o organismo reage. rebela-se. grita. contorcendo-se, briga.
é guerra interna. não atinge países vizinhos.
o rosto chega a sorrir. as fotos saem todas bonitas. o trabalho flui, vezes um pouco mais lento.
o mundo segue girando, redondo que é. e a vida continua sempre em frente, vezes em curva, vezes de ré.
é preciso ser forte para manter-se de pé.
respira, respira, respira. até afetar o pulmão.
inspira ares de compaixão.
sufoca. e dói.
comprime. e dói.
e dói e dói e dói.
e tudo surta. tudo muda. tudo fere.
protege-se. investe na fé.
e é preciso ser forte para manter-se de pé.
quase retrocede, cede, envia, liga, chama, clama.
mas aguenta. caído na lama, apoiado no mundo, espera o baixar da maré.
e melhora.
às vezes até passa.
mas sempre volta.
aos poucos e abundante.
em testes velados.
como goles ferventes de café.

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