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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

novembro 2014

A história de Maria: quem disse que um versinho não daria?

Maria morreu aos 86 anos.
Uma veia entupida fez seu coração parar de bater.
Maria fazia check-up a cada seis meses, usando o convênio de idosos que um médico também idoso recomendou.
Morava na mesma casa há 50 anos. Foi lá que seus pais morreram. E seus três cachorros também
Maria nunca teve sua própria casa. Nunca morou sozinha. Nunca viajou.
Maria nunca transou.
Não acreditava em casamento e não deixou-se abrir o coração.
É provável que fosse lésbica. Mas como lidar com a religião?
Com sua aposentadoria, Maria guardava um pouco de dinheiro e o resto gastava na padaria.
Bolos, pães. Mas tudo sem glútem, recomendação de revista.
Era saudável, comia cenoura para cuidar bem da vista.
Seu sonho era conhecer a Disney. Mas tinha medo de avião.
Maria passou a vida na janela, vendo sua juventude desfilar lá embaixo, lá no chão.
Cuidar de samambaias era sua diversão.
Maria tinha uma enorme compaixão e com porteiros e vizinhos dividia sua refeição.
Cozinhava como ninguém.
Frequentava a quermesse e para o padre dizia amém.
No banco pagava a fatura de sua televisão.
Tinha mais de 500 canais, mas passava o dia vendo Datena.
Só tragédia, só desilusão.
Café da manhã. Almoço. Janta. Dormir e o ciclo repetir.
Saía para ir ao mercado.
Sua casa estava sempre em perfeito estado.
Pensou em adotar gatos, mas concluiu que muito trabalho daria.
Era pacata, afinal, a vida de Maria.
Guardava recortes de destinos nunca explorados.
Tão pesados que um dia a gaveta cedeu.
Cansada, pegou no sono. Só três dias depois a vizinha na porta bateu.
Maria não respondia. Maria, então, morreu.
Cinco vasos de samambaias, um padeiro e dois porteiros.
Foi esse grupo que ao velório compareceu.

Entorpece

quero sentir aquilo de novo.
dor misturada com prazer que misturada com dor vicia mais que cocaína.
adrenalina.
canabis injetada na veia. efeito purpurina.
cerveja com gosto de champagne, chuchu que parece chocolate, alface com gosto de aipim.
combinação que traz o melhor de mim.
heroína. crack. doce. bala. embala qualquer canção de letra melosa.
encoraja qualquer parte ali medrosa.
cachorro molhado correndo em meu jardim.
combinação que traz o melhor de mim.
ecstasy, ópio, metanfetamina. abomina qualquer traço de menina.
amadurece como fruta.
encaixa como luva. trava luta entre razão e emoção.
tem medo de fechar o coração.
desliza sobre lindo piso de marfim.
combinação que traz o melhor de mim.
quando acaba parece flor.
desabrocha e murcha.
arranca da terra.
deixa buraco.
bem mal me quer.
nunca mais será bela, enfim.
combinação maldita.
brinca, borda e pinta.
deixa o pior de todo o mundo padecer dentro de mim.

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