Maria morreu aos 86 anos.
Uma veia entupida fez seu coração parar de bater.
Maria fazia check-up a cada seis meses, usando o convênio de idosos que um médico também idoso recomendou.
Morava na mesma casa há 50 anos. Foi lá que seus pais morreram. E seus três cachorros também
Maria nunca teve sua própria casa. Nunca morou sozinha. Nunca viajou.
Maria nunca transou.
Não acreditava em casamento e não deixou-se abrir o coração.
É provável que fosse lésbica. Mas como lidar com a religião?
Com sua aposentadoria, Maria guardava um pouco de dinheiro e o resto gastava na padaria.
Bolos, pães. Mas tudo sem glútem, recomendação de revista.
Era saudável, comia cenoura para cuidar bem da vista.
Seu sonho era conhecer a Disney. Mas tinha medo de avião.
Maria passou a vida na janela, vendo sua juventude desfilar lá embaixo, lá no chão.
Cuidar de samambaias era sua diversão.
Maria tinha uma enorme compaixão e com porteiros e vizinhos dividia sua refeição.
Cozinhava como ninguém.
Frequentava a quermesse e para o padre dizia amém.
No banco pagava a fatura de sua televisão.
Tinha mais de 500 canais, mas passava o dia vendo Datena.
Só tragédia, só desilusão.
Café da manhã. Almoço. Janta. Dormir e o ciclo repetir.
Saía para ir ao mercado.
Sua casa estava sempre em perfeito estado.
Pensou em adotar gatos, mas concluiu que muito trabalho daria.
Era pacata, afinal, a vida de Maria.
Guardava recortes de destinos nunca explorados.
Tão pesados que um dia a gaveta cedeu.
Cansada, pegou no sono. Só três dias depois a vizinha na porta bateu.
Maria não respondia. Maria, então, morreu.
Cinco vasos de samambaias, um padeiro e dois porteiros.
Foi esse grupo que ao velório compareceu.

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