Mês do Desgosto

Estava vendo TV quando me contaram o que aconteceu.
Acordei e vi no celular a temida notícia.
Era madrugada e eu sonhava com vacas quando o telefone tocou.
Acabara de abundar-me na cadeira do bar quando atendi a ligação.
E, com isso, foram quatro perdas em um único mês.
Muito choro, muita tristeza, muito preto. Energia negativa. Muito desespero. Pouca fé em Deus e muito, muito Pai Nosso.
A vida é de morte e todo mundo sabe disso. A única certeza que temos é que do pó viemos e ao pó retornaremos. Mas vá falar isso para a mãe do menino de 21 anos morto na chacina e cujo corpo era velado na salinha ao lado da que abrigava o corpo, também gelado, do meu avô.
Vá consolar, te desafio, a doce menininha que clamava pelo nome da tia enquanto o caixão encontrava a terra. Os médicos haviam garantido pelo menos mais um cinco anos, ouvi dizer. E eles deveriam estar certos. Afinal, não foi a doença que a levou. Foi o acaso.
Respirei aliviada quando meu velho foi pro quarto, estável, bem. Era hora de começar a fisioterapia, ganhar movimentos e voltar a falar. Mas o coração se recusou. E parou. Duas vezes. Ele tinha mais de 80 anos. Mas carpia, corria, sorria e amava viver a vida. Tinha uma lista enorme de parentes para morrer antes dele. Injustiça (?).
A amiga já não tinha mais cura. Mas, meu deus, era tão, tão jovem. E os jalecos brancos tentaram. Insistiram. Injetaram. Calcularam. Mas a morte não é ciência. É milagre.
Pelo menos com o tio-avô o velório foi diferente. A viúva anunciou que agora vai poder cuidar dos joelhos. Houve uma quase-comemoração. E a certeza de que nem todo mundo será lembrado com tanto afeto.
E eu decidi que no meu velório quero mais riso que choro, menos vela, mais flor. Quero canto, quero amor. Quero fotos minhas penduradas nas paredes, vídeos, comes e bebes.
Mas, mais do que isso. Quero muita gente. Lotar o jardim de pessoas queridas. Que é para ter certeza que acertei nessa vida.
E espero, é claro, que esse dia esteja bem longe. Mas já entendi quão pequeninos somos. E a lição que fica destes que já se foram é que a quantidade de flores e lágrimas colhidas na partida é o resultado de pequenos grãos de gentileza, carinho, cuidado, compaixão e alegria, distribuídos ao longo da vida, que germinaram para nascer amizade, amor e a saudade, que agora habita no coração de quem ficou.
E a morte talvez não seja uma figura obscura, sem cara, de foice. Ela pode ter lindas asas brancas e sorriso acolhedor que, na hora que chega, apazigua e ilumina. Acaba com a dor.
O inferno é o habitat apenas de quem sobra, para ver se aprende que a Terra é uma passagem, cuja felicidade, paz e tranquilidade dependem pura e simplesmente de seus atos, de coragem.
Que sejamos mais gentis, então, que os que foram olhem por nós com o carinho de sempre, como anjos ou estrelinhas, e que setembro chegue mais leve e mais fresco. Que floreie nossos caminhos.
Por favor.

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