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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

outubro 2015

#fail

Se gravado, certamente se tornaria viral.
Mas a vida real não é bem assim, sabemos.
Lá estava eu, exausta, transtornada, com vontade de chorar.
Nas mãos, luvas de forno e uma pinça. Na cabeça, um coque desarrumado envolto em pano rosa. Nos pés, grossas meias e crocs (?!) roxo.
Ao meu lado, um edredom amassado, papeis remexidos: receita médica, carteira de vacinação e telefone dos responsáveis.
Os olhos da Niña estavam saltados, assustados, pupilas dilatadas. Os olhos que piscavam em sinal de afeto cada vez que me miravam, agora evitavam os meus pedidos de desculpas pelo estresse gerado.
Estava ela também exausta, transtornada e, certamente, com vontade de chorar.
Ainda se eu tivesse conseguido. Aí sim, balbuciaria (ainda com lágrimas nos olhos) um orgulhoso “foi para o seu bem”. Mas nem isso. Nem isso.
Puro fracasso.
Desapontada, joguei longe o celular. Na tela, o vídeo pausado: tutorial que para nada serviu.
É isso, concluo, sou péssima mãe.
Mal consigo cuidar de mim, veja bem, pra quê fui inventar de ter sob minha vigilância outro ser, tão bonitinho e frágil – mas de dentes grandes e unhas tão afiadas.
Não consigo. Desisto.
No dia seguinte, então, lá fui eu e Niña receber uma forcinha nesta árdua tarefa.
Deu tudo certo e nem pareceu tão difícil. De acordo com o veterinário, isso acontece com muita frequência. É complicado mesmo dar remédio para um gato.
O único constrangimento foi sacar da bolsa uma escova de pelos e um cortador de unhas enquanto explicava que o comprimido não tinha sido exatamente minha única dificuldade…
¯\_(ツ)_/¯

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Friends

havia três dias.
de ausência. de saudade. de dor.
dormíamos na mesma cama, também três. nós três.
desfalcados. éramos quatro.
não chorávamos muito.
mas achávamos que nunca riríamos outra vez.
era tudo muito escuro e nebuloso.
era fim de tarde. talvez houvesse chuva. talvez não. não me lembro. não importava. não mudava. chovia sempre. dentro de nós.
aninha-mo-nos. de novo. e apertamos o play. replay.
famílias felizes me davam náuseas. desistimos da tv à cabo. só babaquice. só mentira. só ilusão.
o dvd no repeat. temporada atrás de temporada. melhor presente. melhor distração. mero entretenimento. era só televisão.
“smelly cat”. “i like big butts”.
sorrimos, encabulados.
“va fa a napoli”
rrarrarra… tímido.
“isn’t that just kick-you-in-the-crotch, spit-on-your-neck fantastic?”
risinho de canto de lábio. sincero.
“paper, snow, a ghost!”
gargalhamos. sem pudor.
respiramos.
nos entreolhamos.
olhos marejados.
foi difícil.
a vida continuava.
rachel, phoebe,  monica, joey, chandler:
muito obrigada.

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