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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

janeiro 2016

Eu quero é botar meu bloco na rua

Em versos desprovidos de rima, banhados de rítmica melodia, me recuso a passar pelo mesmo infortúnio que me trouxe até aqui. Tantos parágrafos tingidos de sangue de duas esferas cansadas de chorar. É vomitar verde quando já não se tem nada no estômago. Arranhar-se com pequenos cacos de um relógio estraçalhado, erroneamente culpado pela espera de lhe degustar. Uma vida escondendo maços de cigarro imaginários no bolso das calças fartas de sentar em muretas de cimento solitárias para apenas se lamentar.
Hoje eu acordei com o coração na mão e o celular também. Descartei convites animados e encontros queridos. Andei de um lado pro outro, vestindo pijamas e a imensa vergonha de reconhecer-me no coque mal feito, falta de nutrientes e nicotina nos pulmões.
Esperei mais uma vez, é claro – velhos hábitos são difíceis de expelir, como doloridas pedras nos rins com alergia à buscopan na veia.
Contentei-me, porém, com tylenol. 750. Esborrifei um bocado de licor no siso nascendo e vesti minha coroa de flores. Tão mexicana quanto meu espírito que já foi livre em terras cucarachas. Tranquei a porta, deixando o vício teu descarregado em cima da cama e fui viver o melhor carnaval da minha vida. E este, my dear friend, já não vai ter mais fim.
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Felicidade sim

Reconheci a tristeza no olhar baixo, sorriso pesado e caminhar lento. Reconheci-a na lerdeza do teclar, no penteado desajeitado, na falta de se arrumar. Na falta de inspiração, ah, ela estava lá. Não tinha ânsia de mudar, acordar, comemorar. Até o paladar essa maldita sabe como afetar. Então não tinha jantar, não tinha almoçar, mal comia para em pé poder parar.
Era de chorar.
Até que um dia a sorte parece ter vindo visitar. E prometeu para a morte a vida nunca deixar de aproveitar.

O primeiro dia do resto da minha vida

O primeiro dia do resto da minha vida escritora foi quando sentei à frente do computador e escrevi sozinha minha primeira história.
Não deu tempo de esperar a inspiração chegar. Algo tinha que ser entregue. Então entreguei.
O primeiro dia do resto de minha vida escritora tinha eu e uma página de word em branco, referências abertas em abas do safari, um copo de água ao meu lado e a Niña tentando subir no meu colo.
Não me lembro se tinha chuva ou se tinha sol. Mas tinha uma vontade imensa de mergulhar pelas palavras conhecidas em um formato tão novo. Tinha muita insegurança e um medo danado de não ser boa o suficiente. Mas tinha também a certeza de que seria o melhor que eu poderia ser. E fui.
O primeiro dia do resto de minha vida profissional não teve glamour. Porque era só o começo. Mas teve vinho, teve pizza e teve conversa que durou mais de sete horas, mas pareceu passar apenas em duas.
No primeiro dia do resto da minha vida escritora, dei pulinhos empolgados e assustados com o que estava por vir. Neste primeiro emocionante dia, segurei com firmeza a mão da dupla perfeita, remei e descansei. Encarei os olhos do desconhecido e murmurei a palavra confiança.
Este também foi o dia em que minha fé na humanidade foi restabelecida – ainda tem gente legal nesse mundo, sabia?
E neste primeiro dia do começo da minha vida eu sorri enquanto subia a Augusta cumprimentando seus habitantes raros e magníficos.
O primeiro dia do resto da minha vida escritora teve eu e teve a certeza de que eu poderia ser um alguém igualzinho àquele dia. Maravilhoso.

Desapego

Veja bem, a partir do momento que te entregar esse papel, o texto já não será mais meu. Ele passa a ser seu. Quer dizer, nem seu. Passa a ser nosso. Nem nosso. Ele é dele mesmo, entende? É o conjunto da obra, um trabalho inteiro. Só eu, escrita, é metade. Só você, imagem, falta algo, não é mesmo? É que nem filho, sabe? Bom, eu não tenho filho. Mas tenho mãe. Quero dizer, sou filho de alguém. Todos somos. Enfim… Acho que minha mãe tinha que entender que eu só era dela quando era um bebezinho, que precisava ser alimentado e trocado e banhado. Mas que a partir do momento que cresci e sei me vestir sozinho e pego até ônibus, até trem… A vida agora é minha, não é? Quem toma a decisão sou eu. E o papel, esse papel, é isso para mim. Você não sabe quantas noites eu passei em claro cuidando dele. Sim, cuidando. Tive cuidado para escolher cada palavra, cada vírgula, cada travessão. Passei horas e horas e horas balançando para cima e para baixo. Não para dormir, não. Para ver se ficava acordado. Se o cérebro funcionava. Fui trabalhar virado, completamente virado, a fim de salvar algum pingo de inspiração. Deixei a vida social de lado, parei de beber. Pensei durante meses de minha vida só nele, no bem estar da minha cria. Se tivesse um incêndio, você pode ter certeza, seria a primeira coisa que eu salvaria. Os bens materiais eu sacrificaria. E eu me sacrifiquei. Mas não me arrependo. Só é pai e mãe quem sabe, quem tem, quem cria. E agora ele tá aí, todo crescido. Tomou forma, tá parrudo, tá bonito. E eu passei até rímel, mesmo com blefarite, para entregar a você, em mãos, este pedacinho de mim, que saiu de mim. É um momento tão especial. E eu espero que vocês sejam muito felizes juntos. Que se completem, que se amem. Espero que tenham momentos de tensão, porque todo bom casamento tem. Mas que no final vocês se acertem, na medida certa, sabe? Para arrancar palmas e suspiros. Quero que comentem vocês na mesa de bar, na sala de espera, no subir e descer do elevador. O casal perfeito. Quero tudo de melhor pro melhor de tudo que dei. Tá aqui, pega, é seu. Isso, pega. Cuidado, não amassa. Não, sem dobrar. Isso. Agora lê. Não. Calma. Deixa eu ir primeiro. Tchau. Ah, depois me fala o que você achou. Pode ser sincero. Mas, ó, posso te pedir só um favor? Não muda aquela vírgula, não. Ai, e deixa o artigo, gosto de artigo. Significa muito para mim. É, esse, esse artigo. E esse também, se der. Obrigada. Olha! Não, nada. Só… vê com carinho, tá?

Pode beijar a noiva

Teus olhos brilhavam, sorriam teus lábios tensos. As mãos não se desgrudavam nem por um segundo, dedão com dedão fazendo movimentos circulares para ver se o ciclo começava ali mesmo ou se era só alucinação. Teus pés bailavam uma espécie de forró, derrapando sem medo pelo chão de mármore gelado incapaz de conter teu suor. Gotículas que caíam da testa e passavam pelo nariz para pousar onde desse, onde cresce sua imensa emoção. Esperou. Com enorme paciência. E desabou quando a noiva no altar pisou. Nem teu nome soube pronunciar. É que alma não tem certidão e quem mandava ali era aquele tipo de conexão, de outra dimensão. A vida só acontece para quem deixa, para quem quer, para quem se joga. E você mergulha na imensidão de alegrias que o universo, justo que é, reservou apenas para ti. Então, vá. Solte-se de toda e qualquer amarra e voe com a realização plena nesta esfera de água e terra que é pequena para o tanto que merecera.
Vi tua felicidade e tive vontade de chorar. Mas sorri. Para que em 2016 só gente de alma bonita e coração grandioso possa soltar esse riso gostoso que com gratidão percebi em ti. Te desejo neste abraço que todo o peso e todo o cansaço seja enfim recompensado num futuro cujo passado é apenas um filme mal editado a que assistimos no jardim com um balde gostoso de amendoim.

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