Veja bem, a partir do momento que te entregar esse papel, o texto já não será mais meu. Ele passa a ser seu. Quer dizer, nem seu. Passa a ser nosso. Nem nosso. Ele é dele mesmo, entende? É o conjunto da obra, um trabalho inteiro. Só eu, escrita, é metade. Só você, imagem, falta algo, não é mesmo? É que nem filho, sabe? Bom, eu não tenho filho. Mas tenho mãe. Quero dizer, sou filho de alguém. Todos somos. Enfim… Acho que minha mãe tinha que entender que eu só era dela quando era um bebezinho, que precisava ser alimentado e trocado e banhado. Mas que a partir do momento que cresci e sei me vestir sozinho e pego até ônibus, até trem… A vida agora é minha, não é? Quem toma a decisão sou eu. E o papel, esse papel, é isso para mim. Você não sabe quantas noites eu passei em claro cuidando dele. Sim, cuidando. Tive cuidado para escolher cada palavra, cada vírgula, cada travessão. Passei horas e horas e horas balançando para cima e para baixo. Não para dormir, não. Para ver se ficava acordado. Se o cérebro funcionava. Fui trabalhar virado, completamente virado, a fim de salvar algum pingo de inspiração. Deixei a vida social de lado, parei de beber. Pensei durante meses de minha vida só nele, no bem estar da minha cria. Se tivesse um incêndio, você pode ter certeza, seria a primeira coisa que eu salvaria. Os bens materiais eu sacrificaria. E eu me sacrifiquei. Mas não me arrependo. Só é pai e mãe quem sabe, quem tem, quem cria. E agora ele tá aí, todo crescido. Tomou forma, tá parrudo, tá bonito. E eu passei até rímel, mesmo com blefarite, para entregar a você, em mãos, este pedacinho de mim, que saiu de mim. É um momento tão especial. E eu espero que vocês sejam muito felizes juntos. Que se completem, que se amem. Espero que tenham momentos de tensão, porque todo bom casamento tem. Mas que no final vocês se acertem, na medida certa, sabe? Para arrancar palmas e suspiros. Quero que comentem vocês na mesa de bar, na sala de espera, no subir e descer do elevador. O casal perfeito. Quero tudo de melhor pro melhor de tudo que dei. Tá aqui, pega, é seu. Isso, pega. Cuidado, não amassa. Não, sem dobrar. Isso. Agora lê. Não. Calma. Deixa eu ir primeiro. Tchau. Ah, depois me fala o que você achou. Pode ser sincero. Mas, ó, posso te pedir só um favor? Não muda aquela vírgula, não. Ai, e deixa o artigo, gosto de artigo. Significa muito para mim. É, esse, esse artigo. E esse também, se der. Obrigada. Olha! Não, nada. Só… vê com carinho, tá?

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