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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

fevereiro 2016

Embriaguez

Maria começou a sentir tudo aquilo novamente. O tremelique que dá nas pernas, a vontade de berrar e chorar ao mesmo tempo que ri. E comer ao mesmo tempo que não sente fome e dormir quando o sonho atinge a gente com os olhos bem abertos.
Quando Maria pensou em parar, o sistema nervoso já não respondia à razão, que já não comandava o cérebro, que não tinha controle nenhum sobre os pés. E correu. Dançou pelada na chuva. Caminhou lentamente até o precipício e se atirou, sabendo que do chão não passaria.
Maria perdeu o medo. Do escuro, de nadar, de altura. Maria perdeu o medo de temer, temendo ter a certeza de que aquela sensação, que a acometia fervorosamente sem margem para acordos ou um diálogo sequer, resultaria em uma grande ressaca. Catuaba misturada com jurupinga, mistura com vodka, misturada com saquê. A dor de cabeça que não passa com remédio, que não melhora com fritura, que não aceita nem água, nem limão, nem nada. Estômago seco que contrai sem relaxar, que vomita tudo que já não tem. Que derruba, quase mata.
Mas catuaba, quando misturada com jurupinga, vodka e saquê dá um barato que Maria já conhecia. E Maria aproveitou. Maria o copo inteiro virou. Ah, Maria não se preocupou com pudor. Maria se embebedou.
Piruetas, risos fácies, humor matinal. Nenhuma notícia trágica era capaz de lhe fazer mal.
Quando Maria a sobriedade retomou, foi aí que o pesadelo, de novo, começou.
Nocaute como uma remada na cabeça.
Maria um banho tomou. O rímel pelo box escorreu e Maria, sofrida, nem percebeu. Alguém perguntou se Maria se arrependeu e com a resposta esse alguém se surpreendeu. Maria não se lamentou. Maria amou, Maria viveu.

Cartinha da Niña

Olá, pessoal! Meu nome é Niña!
Em 2014, uma tia da AUG me resgatou das ruas e eu fui adotada, mas fui devolvida. Duas vezes!
Em maio de 2015, as tias Chris e Bia me colocaram na caixinha. Já achei que tava indo tomar banho (odeio, odeio, odeio banho. Credo!). Mas chegamos em um apartamento onde viviam três humanos. Pude observar uma delas andando para lá e para cá, super aflita, mostrando pras tias que todas as janelas tinham telas. Ela fazia algumas perguntas ridículas do tipo de quem não faz ideia do que está fazendo. Suspeito que falava de mim.
Quando saí da caixinha, não pensei duas vezes, fui logo explorando, pulando, correndo e me esfregando nos pés.
Mamãe ficou perplexa! Depois, ela me contou que tinha lido numa tal de internet que muitos gatinhos adotados demoram dias para sair de debaixo da cama. Maginaa! Eu quero mais é conhecer tudinho! Até hoje ainda tenho missões a cumprir, acredita? Tem algumas portas proibidas em casa. Uma, a vovó diz que é perigosa, porque tem produtos que podem fazer muito mal pro meu estômago, mas a outra ela não deixa porque não quer mesmo. É o quarto dela!!
Deixa eu contar um segredinho para vocês: a vovó não queria adotar um gatinho. Ela só aceitou porque viu minha carinha no site da AUG, depois da minha mãe insistir muito. Ela ainda tem um pouco de receio, mas é a que passa mais tempo comigo e, aos poucos, consigo conquistá-la. Ela canta músicas para eu dormir, passa a mão na minha barriguinha quando eu me jogo no chão e me dá um pouco de sachê todos os dias. Mas ainda anda com uma almofada para impedir que eu suba no colo dela! É engraçado! Ela morre de medo de cochilar no sofá e acordar comigo pulando. A verdade é que eu me divirto. Só não gosto quando ela aparece com aquela coisa gigante que suga tudo que vê pela frente (até meus brinquedossss!!) e faz um barulhão do mal – acho que chama aspirador de alguma coisa, não me lembro bem. Ainda bem que tem a varanda, aí a vovó coloca minhas coisinhas lá e eu fico sossegadona, tomando meu sol de beleza.
A mamãe e o titio saem de manhã e chegam à noite, cada um em um horário diferente. Ah, para mim, tudo isso é uma festa! Eu fico com saudades, é claro, então me jogo no chão e saio correndo cada vez que alguém abre a porta. Isso sem contar aquela coisa misteriosa chamada elevador! É dali que as pessoas, magicamente, aparecem. E eu reconheço o barulho de quando ele para no nosso andar. Aí eu espero eles entrarem e sentarem no sofá, para eu poder aproveitar um colo, é claro!
Minha mamãe é a que mais me mima. Me deixa subir onde eu quiser! Ela me ama tanto que não quer me ver sofrer de jeito nenhum, por isso não consegue cortar minhas unhas e nem me dar remédio. rs. Ela se esforça, tadinha, mas é difícil para ela. Aí, ela teve que me levar no vet, né? até para aprender uma técnicas para deixar de ser tão mole! E eu fiquei meio assustada de sair de casa, mas ela me acalmou e garantiu que nunca ia me abandonar! Aí eu fiquei calminha e até dormi!
Aliás, é com ela que eu durmo! Às vezes nas pernas, às vezes ao lado, em uma mantinha que ela ganhou, mas que agora é minha! minha! minha!
Ah, sim, não posso deixar de mencionar que eu sou um pouquiiiinho possessiva. Não vem querer mexer nas minhas coisas, não! Principalmente na minha toca vermelha, aquela em que prefiro deitar vezes dentro, vezes em cima, como for mais confortável no momento!
Mas meu temperamento é dócil, poxa. Aposto que você também não gosta que passem a mão em você toda hora – tem hora para tudo, não é mesmo? – e aí quando eu não tô a fim de chamego, já deixo bem claro.
Eles aprenderam rápido a lidar com meu jeitinho e a me amar.
Eu? Ahhh, eu também amo todos eles. Vivo fechando os olhinhos para eles, cumprimentando com o rabo para cima e dando muitas cabeçadinhas amigáveis.
À noite, me aconchego toda na minha dona (às vezes só dou uns cutucões para ela chegar com a perna um pouquinho mais para lá) e de dia dou vários lambeijos, brinco a valer com todos os brinquedinhos (exceto aqueles cuja existência gosto de ignorar), desfilo toda posuda pela casa e sou um amor até com as visitas, vejam só!
A verdade é que eu estou muito bem e feliz! Ganhei até uns quilinhos! Amasso pãozinho, ronrono e faço muito charme! Eu sou linda! E acho que é por isso que todos eles estão sempre apontando um negócio estranho pra minha cara, que às vezes sai uma luz bem forte, que eles chamam de flash!
Ouvi um papo esses dias e acho que não entendi direito, mas mamãe comentou algo sobre como seria bom se eu tivesse um irmãozinho para brincar e amar. Não sei não, hein? para trazer outro gato, só com meu aval. Enquanto isso, vou aproveitando meu reinado e mantenho vocês informados, ok?
Aproveitando o contato, queria agradecer às minha tias, que cuidaram tão bem de mim e me fizeram ter esperança de um dia encontrar uma família para sempre. Taí, eu encontrei, podem ficar tranquilas! Agora eu me despeço, porque vou alí comer um petisco, me esconder no armário, defender minha caixa de papelão de qualquer invasão e atacar o pé do meu tio, porque eu sei que ele gosta!
Lambeijões!

Canção de Ninar

Aquieta esse facho, menina. Acalma essa alma. Canta essa canção. Não deixa mais vir do coração. Medita nas nuvens. Encontra o equilíbrio. Desperte o chakra. Deita na cama. Chore de rir. Assista TV. Beba um copo de vinho. Talvez dois. Talvez três. Garrafas. Fique sozinha um pouco. Deixe passar. Deixe vir. Não deixe ficar. Lembra de como era bom. Pensar só em você. Só para você. Só se quisesse. Se fizesse. Acontecer. Firma bem esses pés no chão, garota. Que passarinho sem asa não sabe voar, não. Observe de cima. Afaste-se do clima. De fininho, na multidão. Passa embaixo desse cordão. Acorda a mente. A imaginação. O apego não pode mais existir. Deixe chegar, mas faça sair. Guarde memórias em potinho cheio de areia. Despeje no mar, invocando a sereia. Nade profundo, pegando seu espaço. Só grude em si mesma, não se faça de carrapato. Limpe, limpe os sapatos. Não autorize a sujeira a adentrar. O que não serve não pode ficar, só deixe sair, não deixe entrar. Berre bem alto, chame bem a atenção. Mas depois caminhe discreta, não dê nem seta, nessa contramão. Aperte o botão. Esperança jogada na esquina. Tacada de cima do ventilador. Ignore essa dor. Egoíste-se. Sem dó. Sem chance. Sem querer ouvir sermão. Não se rebaixe, não abaixe essa razão. Tenha na cabeça essa missão. Na ponta da língua. Sempre a palavra não. Solte o cinto, se jogue no chão. Não faz bem viver assim, sempre a sorrir, com os dentes na mão.

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