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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

junho 2016

Caro mesmo é sofrer

Tem gente que me pergunta por que eu não volto a escrever textos de cortar os pulsos, de sangrar a alma, de fazer revirar estômago e chorar o peito cansado de respirar sem aparelhos. Não escrevo mais sobre dor de amor que atinge a gente como facada no meio das costas numa tarde de terça-feira despretensiosa porque não sei escrever sem sentir. Aquele ardor que queima a garganta na tentativa de liberar aquelas palavras que ecoam lá dentro faz tempo, sem coragem de sair, esse ardor… eu já não sinto. Eu eu não sei escrever sem sentir. Para despejar todo vômito de comida estragada por todo aquele tempo esquecido ali no ego murcho, desprovido de amor próprio, preciso puxar no baú de memória, cujo rangido chega a doer os ouvidos de tão errado e passado e infinito em sua finitude que fora. E preciso cortar-me os pulsos e sangrar-me a alma, com muito omeprazol na veia, que é para preservar o estômago de revirar-se enquanto os pulmões lutam para sobreviver. Uma sobrevida ligada a aparelhos não me interessa mais. Hoje sou inteira e meu inteiro, embora iminentemente dramático, é insanamente mais feliz, ainda que trágico. Hoje sou escritora de mim e a perda de tantos leitores é um preço ínfimo a se pagar, mesmo que doloroso.

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Copiloto

Tem gente que parece que entra na vida da gente só para fazer bem. Parece que aparece só para nos fazer acreditar que podemos fazer mais e melhor e ser mais e melhor. É para esse tipo de gente que a gente arruma tempo na rotina atribulada, empesteada de nadas que a gente faz para tentar se sentir mais e melhor. Sem sucesso algum. E a gente ri e a gente chora e a gente se dá as mãos, gratos por esse tipo de contato verdadeiro. De carne e osso e sem importar maquiagens e sapatos de salto alto que a gente usa, mesmo com dor nos pés, mesmo com alergia nos olhos, para tentar parecer com aqueles que achamos ser mais e melhores do que nós, mas que nem sempre o são. E a gente ri e chora e chora de rir das desgraças da vida. Que doem, mas fazem parte. E a gente se apoia sem julgar pensamentos nefastos ou ideias ruins que, quando trabalhadas, podem sim se tornar melhores e mais plausíveis. Porque nenhuma árvore começa sua jornada lambendo o céu. É comendo terra que a semente germina. E a gente sai de uma conversa dessa regada a vinho que nem precisa ser bom, porque a companhia compensa. E a gente sorri, sozinho mesmo. Sabendo que com esse tipo de gente na vida, sozinhos mesmo nunca estaremos. E a gente vai dormir sabendo que amanhã vai ser um dia bom, que a gente já é um pouquinho mais e um pouquinho melhor do que era cinco horas atrás. Esse tipo de gente devia ter nome. Esse tipo de gente se chama amigo. Quem tem amigo nem precisa fazer muito, não. Só de estar ali já faz de si muito mais e muito, muito melhor.

Raiva

Realmente me deu vontade de chorar. Não fosse meu orgulho, todo o lamento preso com aperto no meio do peito rolaria, salgado, bochechas abaixo. Acho que seria daquele tipo de choro de criança cansada, que faz bico e barulho e perde até o fôlego, tamanha insatisfação.
Queria ser criança, talvez. Deixar o mar desaguar sem medo de julgamentos. Esperar a mamãe acalmar, acalentar, ninar. Queria dormir. Na mesa de trabalho mesmo. Arrumar um casulo, montar uma cabana.
Queria que a vida desse um tempo. Que desse umas férias. Coisa pouca. Que pudesse trazer apenas alegrias. Por alguns dias apenas, que fosse. Que encantasse ao fazer-me enxergar o mundo como pequenina que fui e ainda sou e sempre serei.
Talvez o problema, enfim, seja eu. Talvez seja mimada demais, talvez esteja cansada demais.
E para segurar, como é que faz?

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