Tem gente que me pergunta por que eu não volto a escrever textos de cortar os pulsos, de sangrar a alma, de fazer revirar estômago e chorar o peito cansado de respirar sem aparelhos. Não escrevo mais sobre dor de amor que atinge a gente como facada no meio das costas numa tarde de terça-feira despretensiosa porque não sei escrever sem sentir. Aquele ardor que queima a garganta na tentativa de liberar aquelas palavras que ecoam lá dentro faz tempo, sem coragem de sair, esse ardor… eu já não sinto. Eu eu não sei escrever sem sentir. Para despejar todo vômito de comida estragada por todo aquele tempo esquecido ali no ego murcho, desprovido de amor próprio, preciso puxar no baú de memória, cujo rangido chega a doer os ouvidos de tão errado e passado e infinito em sua finitude que fora. E preciso cortar-me os pulsos e sangrar-me a alma, com muito omeprazol na veia, que é para preservar o estômago de revirar-se enquanto os pulmões lutam para sobreviver. Uma sobrevida ligada a aparelhos não me interessa mais. Hoje sou inteira e meu inteiro, embora iminentemente dramático, é insanamente mais feliz, ainda que trágico. Hoje sou escritora de mim e a perda de tantos leitores é um preço ínfimo a se pagar, mesmo que doloroso.

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