Busca

Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

julho 2016

Zena

Eu me lembro direitinho do dia em que te conheci. Você era tão pequeno e frágil. Eu estava tão bêbada, era quase como uma iniciação. Para mim e para você. Nós dois estávamos entrando para aquela família muito louca. Me lembro vagamente que havia morcegos e eu tinha medo, mas estava me divertindo muito. Tinha amigos, muitos amigos e a sensação de que algo muito incrível começara. Acho que já mencionei que eu estava muito, muito bêbada. Todo mundo se arrastava para chegar até os quartos e aí eu vi você. Tão pequeno, tão frágil e tão sorridente, tão brincalhão. De alguma forma, que eu jamais saberei explicar (não sem uma bebedeira) eu soube que, naquele momento, você era meu. Minha responsabilidade. Eu não sentia meus braços ou minhas pernas. Certamente tentei falar. Chamar sua mãe. Pedir alguma ajuda. Mas é claro que minha língua também não funcionava como devia. E eu tomei a decisão que hoje me faz chorar como criança. Peguei você no colo, mesmo sendo de humanas, fiz contas quase físicas – para evitar nossa fatal queda na piscina sem resgate provável, considerando o nível etílico das outras pessoas presentes – mirei e fui. Fomos. A memória é meio embaçada, sabe? Então às vezes nos vejo correndo pelo pequeno caminho de pedras entre o que parecia ser a mata e o mar e às vezes nos vejo caminhando, tranquilos e focados.
Só o que sei é que você estava acordado. E feliz. E babando. Sim, você babava muito. E quando chegamos, sãos e salvos, ao nosso destino, me lembro que você dormiu e que eu passei boa parte da noite observando seu respirar alto. Sem medo de ser feliz. Tão pequenininho. E você foi crescendo e ficando lindão e, sorte a minha, nessa época eu frequentava muito a sua casa. E te comprei presentes e roupinhas e passeei muito com você no parque. E fui acordada muitas manhãs por sua vontade de brincar e brincar e comer e ser ainda mais feliz. Meu Deus, você foi muito feliz. E tinha muita gente, acredite em mim, que visitava sua mãe só para poder te ver. Você foi muito lindo e simpático e amoroso. Mesmo quando estava doente. E eu sabia que esse dia chegaria. E eu sabia que eu choraria e que sua mãe choraria muito mais do que aquele dia em que o Corinthians perdeu, lembra? e que a gente teve que ficar consolando a garota sem saber muito bem o que falar. Mas hoje eu sei o que falar. Você teve a melhor família que esse mundo poderia te dar e a sua família teve o mais maravilhoso, caótico e fantástico cão que qualquer família poderia ter. Esse foi um encontro divino, daqueles que ficam guardados para sempre na história. Daqueles que fazem a vida valer a pena. Até o fim.
Zena2
Maizena, foi um prazer ser sua madrinha. Sua felicidade vai ficar para sempre guardada no meu coração. Vá brincar, garoto, vá brincar!
Zena1

Ler é o melhor remédio

Lá fui eu para o primeiro e muito esperado dia de treinamento. É claro que eu sentia medo. No curso, demorado por demais e necessário por demais, sabiamente nos alertaram sobre tudo que poderia acontecer. Desde sorrisos que serão lembrados pelos restos de nossas vidas, passando pelo bem provável chilique de pais desesperados, chegando na morte – assunto delicado demais, principalmente para quem está dando o primeiro passo de muitos dentro de um hospital infantil.

Eu cheguei meio sem saber o que fazer, tentando ser simpática, mas não muito, mostrando que sei bem onde é meu lugar. Imaginei que quem lê histórias para crianças em hospital não tem como ser uma pessoa ruim. Então não tive muito receio quanto a conhecer minha treinadora. E eu tinha razão. Malu é uma senhora incrível. Para quem entende a referência, ela é a cópia cuspida e escarrada da Frankie, aquela mesmo, que é amiga da Grace, da Netflix. Para quem não vive nesse mundo, explico: Malu tem belos cabelos grisalhos, chegou na terceira idade com louvor e muita beleza, é meio hippie, não tem papas na língua, meio louca, meio secona e uma pessoa muito maravilhosa. Sua dupla, Vera, que trabalha a seu lado há 18 anos, é o exato oposto: a mulher mais doce que já conheci nessa vida. Queria ficar abraçada nela o tempo todo. Mas seria demasiado esquisito para um primeiro dia.

Como me foi informado, aquela experiência serviria apenas para observar. Sacar o estilo, entender como as coisas funcionam. Então lá estava eu, fazendo com perfeição o meu papel de sombra. Mas se você já teve qualquer contato com crianças, mesmo que de longe, mesmo que sem querer, sabe muito bem que elas são muito mais astutas do que todos nós, adultos, juntos. Assim sendo, é claro que mesmo contando com uma Malu doidona e descolada cheia de livros em ambas as mãos, era eu a peça daquele teatro todo que chamaria a atenção desde os bebês até os mais grandinhos e mais cruéis – um menino que estava para ter alta, portanto felizmente sem dor nenhuma e já muito entediado, perguntou se eu era muda. Eu observei um pouco, sim, mas aprendi muito mais e na marra. Minha voz engasgou, minhas mãos tremeram um pouco, derrubei alguns livros no chão e provavelmente quebrei alguma regra ao debruçar em um berço muito alto e dar conselhos para uma mãe que não estava desesperada não, mas que carregava muitas angústias em sua serenidade.

Foram só duas horas, entre chegar, colocar o avental, ouvir algumas instruções, escolher os livros, esperar os pacientes tomarem banho, tomarem café e serem examinados pelos médicos do turno da manhã e, finalmente, fazer o nosso trabalho. Poderia ter sido vinte. Vinte horas não dariam conta daquele mundo de histórias e crianças e muitos obstáculos a superar.

Mas em duas, apenas duas horas, eu aprendi a ser mais confiante, vi uma menina de seis anos melhorar a leitura em questão de três livros pequenos e cheios de gravuras, senti o amor incondicional de um pai que deixa sua vida toda de lado para morar ali, entre tubos e seringas, agulhas e lençóis que jamais serão os seus por quanto tempo for necessário, mesmo que esse tempo seja para sempre. E, em menos de duas horas, eu fui tocada, mudada, mexida. Eu conheci, na pele, o poder da história.

Quando estava ali, lendo, sendo útil, tendo um pequeno sucesso, nada mal, com meu público, Vera pegou um livro para ler. Bem ao lado da criança, onde já estava posicionada, debrucei para ouvir. Minha intenção era levar a pequena menina a fazer o mesmo, mostrar que aquilo era uma coisa legal. Minutos depois fui transportada para o mundo mágico de um menino chamado Guilherme Augusto Araújo Fernandes, e ele nem era tão velho assim. A cada página que os leves dedos viravam, quase como brisa, novas imagens e letras e novidades apareciam. E quanto mais suave a voz de Vera saía, quase como veludo, mais debruçada eu me derretia. Nem lutei contra meu ímpeto. Nem percebi o papelão. Virei a cabeça pro lado e prestei toda a minha atenção. Era como se eu estivesse em casa, no conforto da minha cama, protegida, feliz e quentinha, sendo acolhida pelos braços do universo. Quando a fatídica contra-capa chegou, precisei de uns segundos para entender onde estava, que horas eram, que eu precisava levantar dali, que tava vergonhoso e se dava tempo de mais um livro, pequenino que fosse. Eu fiquei um pouco vermelha, um pouco sem graça e muito feliz. Entendi a beleza, grandeza e importância desse tão delicado trabalho. Gelei, meu deus, que responsabilidade, mas saí de lá flutuando, distribuindo sorrisos, ansiosa pra semana que vem.

Blog no WordPress.com.

Acima ↑