Eu me lembro direitinho do dia em que te conheci. Você era tão pequeno e frágil. Eu estava tão bêbada, era quase como uma iniciação. Para mim e para você. Nós dois estávamos entrando para aquela família muito louca. Me lembro vagamente que havia morcegos e eu tinha medo, mas estava me divertindo muito. Tinha amigos, muitos amigos e a sensação de que algo muito incrível começara. Acho que já mencionei que eu estava muito, muito bêbada. Todo mundo se arrastava para chegar até os quartos e aí eu vi você. Tão pequeno, tão frágil e tão sorridente, tão brincalhão. De alguma forma, que eu jamais saberei explicar (não sem uma bebedeira) eu soube que, naquele momento, você era meu. Minha responsabilidade. Eu não sentia meus braços ou minhas pernas. Certamente tentei falar. Chamar sua mãe. Pedir alguma ajuda. Mas é claro que minha língua também não funcionava como devia. E eu tomei a decisão que hoje me faz chorar como criança. Peguei você no colo, mesmo sendo de humanas, fiz contas quase físicas – para evitar nossa fatal queda na piscina sem resgate provável, considerando o nível etílico das outras pessoas presentes – mirei e fui. Fomos. A memória é meio embaçada, sabe? Então às vezes nos vejo correndo pelo pequeno caminho de pedras entre o que parecia ser a mata e o mar e às vezes nos vejo caminhando, tranquilos e focados.
Só o que sei é que você estava acordado. E feliz. E babando. Sim, você babava muito. E quando chegamos, sãos e salvos, ao nosso destino, me lembro que você dormiu e que eu passei boa parte da noite observando seu respirar alto. Sem medo de ser feliz. Tão pequenininho. E você foi crescendo e ficando lindão e, sorte a minha, nessa época eu frequentava muito a sua casa. E te comprei presentes e roupinhas e passeei muito com você no parque. E fui acordada muitas manhãs por sua vontade de brincar e brincar e comer e ser ainda mais feliz. Meu Deus, você foi muito feliz. E tinha muita gente, acredite em mim, que visitava sua mãe só para poder te ver. Você foi muito lindo e simpático e amoroso. Mesmo quando estava doente. E eu sabia que esse dia chegaria. E eu sabia que eu choraria e que sua mãe choraria muito mais do que aquele dia em que o Corinthians perdeu, lembra? e que a gente teve que ficar consolando a garota sem saber muito bem o que falar. Mas hoje eu sei o que falar. Você teve a melhor família que esse mundo poderia te dar e a sua família teve o mais maravilhoso, caótico e fantástico cão que qualquer família poderia ter. Esse foi um encontro divino, daqueles que ficam guardados para sempre na história. Daqueles que fazem a vida valer a pena. Até o fim.
Zena2
Maizena, foi um prazer ser sua madrinha. Sua felicidade vai ficar para sempre guardada no meu coração. Vá brincar, garoto, vá brincar!
Zena1
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