A gente fica forte. Ri, sorri, gargalha até. A gente acha bonito o céu, o formato das nuvens, o novo corte de cabelo, o sapato que o orçamento apertou pra poder encaixar. A gente se encanta com o ronronar do gato, o novo episódio da série, as possibilidades de futuro próspero. A gente fica até sem escrever um tempão – sinal já calejado de que vai tudo bem, tudo bom. A gente chega a sentir até medo se aparece alguma dor esquisita. E sai correndo do trabalho às quatro da tarde de uma quarta-feira cheia de coisa acumulada pra fazer. É que a gente não quer morrer. Ainda tem tanto mundo, tanta coisa pra ver.

E aí tá tudo bem, tudo bom. O exame não acusa nada. A gente respira aliviado e fuma até um cigarro de novo, pra comemorar o pulmão que parece que ainda aguenta. E a gente ri, sorri e gargalha de novo. E se esforça pra ser uma pessoa melhor. A gente decora alguns mantras fofinhos e tibetanos pra poder neutralizar a mente quando encara aquele tipo de gente que não deveria, mas tira a gente do sério. Só por respirar. E a gente medita internamente, pra devolver pro mundo aquela paz e aquele amor que a gente sente quando sente o vento frio na janela aberta do carro, bem de noitezinha, cantando junto com o rádio a canção que a gente ama só porque sabe de cor.

E tem hora que a vida da gente parece um filme independente que deu certo. A gente acredita numa provável indicação ao Oscar e suspira ao perceber que, mesmo que não chegue em Hollywood, tá tudo muito bem, tá tudo muito bom.

Mas aí numa tarde ociosa de quarta-feira sem trabalho acumulado, a gente escolhe a música errada na playlist. E a gente se sente aquele nada, que não vai conseguir mudar o mundo – nem o seu próprio. E a gente só enxerga nuvem carregada onde antes tinha cor. E não chora, mas também não ri, não sorri, não gargalha. E a gente enfia a cara na barriga do gato, pra ver se um afago melhora um pouco o caminho. Mas sai de casa com um arranhão no nariz e com a certeza de que de super não temos nada. Nós somos apenas humanos e eu acho que, às vezes, isso é uma sorte danada.

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