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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

novembro 2016

Tóxico

Tem gente que consegue extrair o pior de dentro de nós.
Funciona como veneno poderoso. Nem precisa ser ingerido. Basta chegar perto, basta exalar aquele aroma seco que machuca os pulmões no respirar mais profundo. O veneno – que, cruel, não mata – age como droga. Nocivo que é, ele muda a forma de lidarmos com o mundo. Não relaxa, como a cannabis; não estimula, como cocaína. Mas vicia, como crack.
Os olhos não ficam vermelhos e as pupilas seguem dilatadas com parcimônia, como deveriam ser, para enxergarmos melhor. Mas a cegueira está ali. Munida de uma certa raiva, de um certo bode, de uma certa maldade, essa substância ao mesmo tempo cinza e incolor, ao mesmo tempo melequenta e gasosa, inebria, distorcendo todos os valores, toda a moral construída pelos percalços do caminho. Pelo superar das adversidades.
Os atos horrendos, antes inimagináveis, são cometidos sem pudor.
O usuário, nem sempre ciente de que fora afetado – perceba aqui o perigo da droga – se transforma no monstro que sempre condenou e evitou. É ele, agora, a criatura que merece distância. Que merece temor.
As consequências são, geralmente, catastróficas e, o pior, não é só para ele. A potência dessa substância influencia todo um entorno, gerando uma reação em cadeia. Um tufão invencível, um chupacabra imortal.
E a ressaca, como é de lei natural, sempre vem. Os principais sintomas, além da óbvia dor de cabeça, é o arrependimento. O desespero, quando se percebe o que foi feito, acomete até os indivíduos mais insensíveis. Pode haver choro e é provável que sejam tentados métodos drásticos para reverter qualquer mal-estar. Mas esse esforço quase sempre é em vão.
Mesmo abatido, a chance de ser acometido pelos mesmo processos outra vez é, infelizmente, muito alta.
A quebra do ciclo vicioso requer muito autocontrole e, mais importante, força de vontade. Meditação talvez ajude. Mas é pior que dieta, que tentar parar de fumar. É impossível também denunciar às autoridades – o tóxico é legal nos termos jurídicos.
São poucos os que se tornam imunes. A recaída costuma ser recorrente. Os sobreviventes deveriam criar uma nova forma de sociedade, marginal.
O triste é saber que são poucos – muito, muito poucos – os que poderiam participar dessa paz, integrar essa elevada comunidade.
É preciso desintoxicar. Só com o bem se mata o mal. Mas esse já vive, respira, se alimenta, dorme, descansa, desperta, cresce e explode bem dentro de nós.
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Sobre Elena Ferrante e a montanha-russa da vida

Me vi passando por um momento desses meio blá. Faz tempo que não escrevo. Tem muito texto na pasta de rascunhos, mas esses me parecem obsoletos, já não me representam. Com os amigos, a sensação é parecida. Não me leve a mal, os poucos e bons guardo comigo numa caixinha, sempre dentro de mim e a dois passos do whatsapp. Os novos, me empolgaram a princípio. Mas assim como vieram, se foram, meio que desapontados. Desapontada fiquei eu também. Bem mais por culpa minha do que deles. Não sei também o que estava esperando, não sei fazer amizades a essa altura do campeonato. Aqueles, da caixinha, formaram seu caráter junto comigo. Tomaram decisões erradas, com as quais aprendi. Eu também fui de muita ajuda nessa época difícil que chamamos de adolescência. Nossos passos estavam sempre em sincronia. Nossos acertos foram muito comemorados. Muitas vezes com cerveja e cigarros comprados sabe deus como, sem identidade.

Mas até para esses, não sei muito bem o que mais poderia, agora, oferecer. Não muito além de meu rosto velho conhecido, ombros e risadas como ponte para memórias deliciosas, de tempos que não voltam mais.

Sinto como se eu fosse um e.t. dentro do meu próprio corpo. Algo muito parecido com os meus dez anos, quando sangrei pela primeira vez. De maneira muito precoce, surgiram-me seios e pelos e sentimentos que eu nem sabia que existiam. E a vontade de ficar sozinha – essa nunca me abandonou. A diferença é que dessa vez não ganhei flores ou festinha, muito menos parabéns. Não há glamour em tornar-se adulto.

O sangue já escorre por entre minhas pernas há mais de dezessete anos, com uma frequência bem desregulada e acompanhado de dores que meu eu hipocondríaco sempre acha que me levarão à morte – e elas sempre desaparecem, esnobes. E eu tive que aprender a conviver com isso. Novos pontos de gordura também me apareceram, mas, dessa vez, por obra do carboidrato e não pela sabedoria infindável da misteriosa mãe natureza.

Os muitos quilos que ganhei – colocando a culpa na súbita perda de meu pai e de uma cirurgia truculenta de joelho, já em sua função quase normal – nunca mais perdi. E até isso vai ficando mais difícil.

O horizonte não é claro e empolgante, como antes fora. O próximo passo a seguir é no escuro. E dá muito medo. Dessa vez, tem muita coisa em jogo. Os boletos mensais não me deixam mentir.

Sentei no sofá, com uma gata – que era pra ser dócil, mas gosta mesmo é de tentar arrancar o dedão do meu pé – sobre minhas pernas e pensei na vida. E não foi legal.

Veja bem, eu amo estar viva. Agradeço por cada novo meme que deus me dá a oportunidade de ver, eu juro. Mas não devia ser um pouco ou muito mais do que isso?

Uma vez eu contei a uma terapeuta, que meu refúgio era nos livros. Era nesse mundo encantado, nada meu, muito do outro, que eu gostava de estar quando a realidade não me era assim, tão satisfatória.

Mas os últimos livros que li, acredite, foram péssimos. E eu li até o final só porque, diferentemente do que acontece com as dietas, não consigo abandoná-los no meio do caminho. É uma questão de respeito.

Aí, dia desses, acabei parando numa mesa de vinho – quase que por inércia – e uma gente muito interessante que cruzou meu caminho acho que por misericórdia do destino, me recomendou Elena Ferrante. E hoje, depois de um feriado meia-boca, eu senti meus olhos ganharem brilho novamente.

E se um texto bem escrito fez tão bem a mim, então por que raios não faria a você?

Esse post, então, é pra recomendar essa autora italiana meio anônima – ninguém sabe ao certo quem ela é –, cuja obra merece cada centavo de seu contado dinheirinho. Serve também para agradecer essa linda e despretensiosa indicação e, como não poderia deixar de ser, como mais um capítulo desse diário que chamo de blog – porque foi para isso que ele nasceu e foi assim, afinal, que conquistei alguns dos que me seguem.

A vida, minha gente, é essa coisa esquisita mesmo, uma montanha-russa sem freio que, dependendo da curva, faz a gente berrar de felicidade com os braços abertos ou chorar segurando bem forte na barra de segurança, pedindo pelo amor de jesus cristo, para ir um pouco mais devagar. Sem contar as inúmeras vezes que te faz vomitar, né?

Mas é isso que faz dela o bem mais precioso que o mundo poderia ter. Vai entender.

 

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