Quando eu era pequena, era batata: todo carnaval, ano novo, feriados, aniversários e fins de semana eram lá. Minha mãe preparava as malas, meu pai fazia mágica para fazer caber todos os apetrechos em um porta-malas apertado e logo a gente seguia viagem.
No caminho, a pequena eu já ia entrando no clima. À medida em que saíamos da cidade, as janelas eram todas abertas, o rádio era substituído pelo som do vento e os prédios davam lugar a tons de verde que se misturavam e confundiam, em uma pintura impossível de explicar.
Quando passávamos pela estrada de terra, eu já tirava logo o cinto e me preparava para matar as saudades da vizinhança. Começava pelos cachorros, que nos reconheciam de longe, fazendo papai tirar o pé do acelerador.
Eu sacudia os bracinhos ao cumprimentar o Meloso, sentia um afago no peito ao rever dona Maria e seus muitos filhos na barra da saia e me sentia completa ao avistar o velho amigo Azulão.
Ao estacionar, vovô já estava posicionado, todo pomposo, com uma das mãos apoiada no ponto mais alto do portão e a outra descansando na cintura. O chapéu, vezes de palha, vezes de pano, escondia a abundância de cabelos volumosos e bem pouco grisalhos. Ele nos recebia com um abraço caloroso e uma gargalhada sincera. A melhor energia que senti na vida.
O tempo foi passando. Mais crianças chegaram à família e a pequena casa com um imenso jardim sempre tinha espaço para mais um e mais um e mais um…
Todo mundo passou por essa casa, que agora é de vocês.
Tanta coisa aconteceu nessa varanda. Foi atrás da casa, espiando pelos tijolos vazados, que fumei meu primeiro cigarro escondida. Era sentada na mureta que eu ouvia as melhores músicas observando o ir e vir da rede que abrigava o sono de alguma tia no fim da tarde.
No jardim, sempre verde e bem aparado, aconteceram as mais horrendas peladas de homens de meia-idade contra garotos gordinhos que sempre acabava em um pé quebrado ou joelho torcido.
Foi nas ruelas de terra que aprendi a dirigir. Foi, bem ali, do lado esquerdo da cerca, que tive a primeira conversa sobre amor com a minha avó, enquanto coletávamos mamonas para fazer de munição da guerrinha de mais tarde.
Minha avó também foi a primeira pessoa que vi matar uma cobra e acho que foi ali que entendi o que era girl power. Aprendi o nome das flores, comi muita coisa do pé e observei o movimentar das nuvens, deitada na grama ainda úmida do orvalho da manhã.
Em dias de sol, regávamos as árvores com guerra de bexiga e a horta, sempre farta do fundo do terreno, me deixou com um problema sério: não consigo mais comer verduras em nenhum outro lugar. O verdadeiro gosto da alface nada tem a ver com essa que a gente encontra no mercado.
Foi na casa de árvore construída pelo vovô que meu irmão pegou berne na cabeça. Uma vez meu avô foi colher bananas do alto da mais alta bananeira, posicionou a escada, subiu e… caiu como vara verde. Esse assunto era proibido nos almoços de domingo.
Meu avô amava esse lugar. Tudo aqui, tudo mesmo, foi construído por suas mãos.
Cada árvore foi plantada em um lugar preciso, pensado para crescer com saúde. Cada flor foi escolhida a dedo para atrair os passarinhos mais lindos. Não tem um centímetro nessas terras que não tenha sido tocado por suas pesadas botas ou acariciados por suas mãos calejadas, delicadas e ásperas.
Esse era o seu paraíso. Foi onde ele despejou mais amor. E é possível ainda enxergar uns traços dele por aqui. Uma aura, uma alegria, essa beleza. E se tem uma única coisa que ele certamente pediria seria nunca deixar essa casa vazia, a mata crescendo e as frutas apodrecendo no chão.
Isso aqui precisa de gente. Precisa de criança correndo, carne assando, moda de viola na vitrola e as árvores sempre servindo de apoio para redes que servirão de abrigo do sono do fim da tarde.
Isso aqui precisa de vida. E precisa de alguém que fique empolgado no caminho, no fim de semana, ouvindo o barulho do vento, ansioso pelos reencontros, sabendo que a felicidade está logo ali, no virar da curva de barro.
Essa chácara precisa de amor, precisa de vocês.
E é por isso que é sem amarras que entrego essa chave.
Esse mundo é muito grande e a gente mora mesmo é dentro da gente.
Mas tem certos lugares que são nosso lar, mesmo sem ser a nossa casa.