comecei a chamar a menina de traíra, veja bem, sem que ela me tenha feito nada. absolutamente nada. bem, nada diretamente, né? porque magoar amigo é magoar-me duas vezes. traição, então, nem se fala. que a gente passa uma vida inteira de confiança, respeito, admiração. segura a cabeça do outro enquanto o outro vomita, não deixa engasgar, pega água gelada, protege o cabelo e até leva pro hospital, se necessário. tudo sem contar pros pais do dito cujo, que além de pisar, espirra a merda pros amigo tudo. que a gente faz voz de quem sabe muito bem do que está falando quando recebe a ligação às quatro da manhã de uma mãe desesperada e responde “aham, aham, tá aqui sim, mas não pode falar, porque tá no banheiro”. e aí é a gente que desespera, ligando para todos os conhecidos em comum, hospitais, iml, suando frio até aparecer, tão vivo que dá vontade de matar. a gente pega carro emprestado para acudir quando foi preso, quando foi pego, quando tá triste. a gente deixa de dormir para servir de terapeuta. gasta o crédito que não tem para acalmar ânsias noturnas. deixa de lado família, trabalho, animal de estimação. que a vida do outro é tipo continuidade da nossa. que se o outro morre, grande parte da gente vai junto. que quando machuca, a gente fica meio manco também. e se estamos numa canoa, eu remo e você descansa. você descansa e eu remo. e aí eu falo mesmo. que na hora de ser amigo na festa e na farra, ah, aí é mara! mas na crise e no problema, aí não dá para aguentar? que pode me ofender, difamar, xingar e até berrar. nada disso me indigna. mas apunhalar pelas costas a amiga? cê me desculpa, que aí não vai dar.

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