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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

mês

março 2017

posologia

dá um tremelique. começa bem no centro do corpo, meio que na espinha, meio que no estômago.
aí desce pras pernas, fazendo cair. fazendo tombar. perdendo o equilíbrio como quando criança que vivia engessada. que vivia ralada, vivia.
o tremor sobe pra cabeça, balança os ombros, faz chacoalhar o pulmão.
dá uma agonia dentro da gente.
deita. levanta. deita. levanta. deita de novo.
tenta dormir. não dá. não rola. não descansa.
parece que tem um duende aqui dentro. pisoteia tudo. remexe tudo. como roupa recém-lavada, que, encharcada, precisa torcer.
e bate um martelo. enfia facas. machuca.
pega o celular. conversa. amigos.
mais amigos. outros amigos. mais uma opinião.
não adianta nada não.
é só meu. é só seu. é tão nosso que não cabe num caminhão.
só eu entendo.
clamo pelo universo. céu. lua. astros.
tento homeopatia. muito lerdo.
maconha. muito pouco.
maracugina. de um a dois comprimidos revestidos, três vezes ao dia, depois de cada principal refeição.
sistema nervoso não responde. o tremelique só caminha pelo corpo. pode ser grave, vai saber.
não tem bula. meu remédio é você.
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Labirinto

não precisa nem tocar. nem relar. nem precisa chegar perto. é só aparecer. em sonho. em texto. em pensamento.
é só lembrar. é imaginar. mesmo no ambiente menos propício. mesmo quando o assunto é tenso. mesmo quando dá sono. dá tédio. tem graça. porque tá dentro. porque tá junto. e não precisa de muito mais.
o desejo é físico. a conexão, de alma.
o toque inevitável. a íris que se encontra. e não larga nunca mais.
a memória é fotográfica. o cheiro tá guardado nas narinas. texturas. peles. cores.
as palavras não machucam mais. abrem o peito. vomitam o que é bom, o que é ruim.
aliviam.
resolvem.
confundem.
há paz. onde há entendimento. e a gente se ajuda. só nós por nós.
erramos. arrependemos até. mas nos rendemos. a tudo isso que explode. vulcão.
apertem os cintos. primeira fila da montanha russa. agarra com força. se perde no looping.
descida. subida. eternas. deliciosamente maluca. frio. na barriga. na espinha.
vontades.
medos.
dedos que não disfarçam.
e duas mãos sempre juntas. tentando achar a saída.

fênix

Todo mundo dorme lá dentro. Um amontoado de corpos etílicos, cansados de extravasar.
Aqui fora sou eu. Como só eu conheço. Peço licença pra lua, que gentilmente ilumina um pedaço de papel amassado de quem não consegue despejar o desespero em pequenas teclas de mensagens rápidas. Precisa do borrar da caneta.
Não me importo com a legibilidade das letras intrincadas, também um pouco bêbadas. Esse é o tipo de carta que não se entrega. Escreve-se pro outro, que existe em si mesmo. Confessa-se exagerado, desnecessário tão necessária e urgentemente que soa até piegas. Brega, talvez.
É pouco o sinal que chega. Mas suficiente pra cumprir com a única missão de fazer rodar o mais triste disco do chico. Dramático. Poético. Real.
A canção que faz mais sentido é tocada inúmeras vezes, tentativa frustrada de derramar mais um pouco de água do mar.
A sofrência vem lá de dentro. Âmago. Como ondas bravas. Ressacas. Contorcendo as entranhas até fazer um nó escoteiro no fundo da garganta. Solta! – Eu peço.
Mas os olhos, já secos, se recusam. Eu respeito. Vai assim mesmo.
O ponto final é libertador. Alívio.
Não há certeza, porém. Tudo ainda continua lá. Lá dentro, aqui fora.
Que não adianta correr pra longe. Não dá pra fugir do que se carrega no peito. Na alma.
Mas agora respiro.
E sorrio. Sincero.
Sofrer é viver.
Viver é bom demais.

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