Todo mundo dorme lá dentro. Um amontoado de corpos etílicos, cansados de extravasar.
Aqui fora sou eu. Como só eu conheço. Peço licença pra lua, que gentilmente ilumina um pedaço de papel amassado de quem não consegue despejar o desespero em pequenas teclas de mensagens rápidas. Precisa do borrar da caneta.
Não me importo com a legibilidade das letras intrincadas, também um pouco bêbadas. Esse é o tipo de carta que não se entrega. Escreve-se pro outro, que existe em si mesmo. Confessa-se exagerado, desnecessário tão necessária e urgentemente que soa até piegas. Brega, talvez.
É pouco o sinal que chega. Mas suficiente pra cumprir com a única missão de fazer rodar o mais triste disco do chico. Dramático. Poético. Real.
A canção que faz mais sentido é tocada inúmeras vezes, tentativa frustrada de derramar mais um pouco de água do mar.
A sofrência vem lá de dentro. Âmago. Como ondas bravas. Ressacas. Contorcendo as entranhas até fazer um nó escoteiro no fundo da garganta. Solta! – Eu peço.
Mas os olhos, já secos, se recusam. Eu respeito. Vai assim mesmo.
O ponto final é libertador. Alívio.
Não há certeza, porém. Tudo ainda continua lá. Lá dentro, aqui fora.
Que não adianta correr pra longe. Não dá pra fugir do que se carrega no peito. Na alma.
Mas agora respiro.
E sorrio. Sincero.
Sofrer é viver.
Viver é bom demais.
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