O vento bate forte nesse óculos gigante sem grau. Tão forte que não enxergo nada. Nada.
As roupas, que não são minhas, pesam demais. Carregam uma história um tamanho maior que o meu. Doem os ombros e seguram as pernas, que não sabem muito bem se conseguem dar um passo para frente.
É alto demais. Perigoso demais. Arriscado demais. Loucura, talvez. Tanta gente avisou. Pediu para ter cuidado. Mas mesmo assim eu tô aqui.
Agarrada na porta. Meus dedos doem. Paralisados, seguram as bordas como se disso dependesse a vida. E depende mesmo.
Atrás de mim uma voz ecoa “três, dois, um”. Eu berro. O grito esvazia o pulmão. Tá difícil respirar.
Tenho medo. Muito medo. Cair de cara no chão. Ah não, não depois de me proteger tanto.
Tenho medo. Muito medo. Mas não foi pra isso que vim até aqui?
Sinto duas mãos nas minhas costas. Empurram. Grosseiras. Incentivam. Elas têm razão.
Mas eu berro ainda mais. E choro. Desespero.
Mais uma rajada de vento. Fecho os olhos. Medo. Abro os olhos. Medo. Vejo uma luz. Vejo o céu. Vejo o sol. Quentinho.
Parece que agora pesa menos. Ensaio meio passo pro lado. Pra frente ainda não dá.
Vejo as nuvens. Vejo pássaros. Vejo vida lá fora. Consigo puxar o ar. Respiro meio trêmula.
Solto uma das mãos. Os dedos ainda estão doloridos. Não se movem. O pé direito consegue se soltar das amarras.
Não vejo o chão.
Abro os braços. Vai, me aconselham.
E eu vou.
Eu pulo.
Queda livre.
Se a cordinha não funcionar, se essa merda não abrir… o tombo será mortal.
Mas o caminho é tão lindo.
Liberdade.
Sinto o vento bater no rosto. Óculos, roupas, uma história que não é minha. Não pesam mais.
Sorrio. Embasbacada.
Vejo a vida acontecer ali. Em mim.
Me jogo mais.
Me liberto mais.
Eu quero mais.
Te espero no chão. Me encontra?
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