Tenho sentido um incômodo, uma coisa ruim. Uma sensação esquisita de estranhamento, de perder a base, de perder o chão. De não me reconhecer ou reconhecer o outro em quem o outro era ou significava para mim.
E tenho usado muitos verbos no passado, mesmo estando ainda este no presente.
Hoje algo dentro de mim explodiu. Como quando estamos sentados, confusos, na poltrona da terapia e de repente – como num passe de mágica, como se o mar se abrisse, como se a luz se acendesse – tudo passa a fazer sentido, límpido como a mais pura água.
Eu preciso falar sobre vovó.
Hoje, o tema é prático, é mecânico, é quase como obrigação. “faz dois finais de semana que você não vê sua avó”. Vem em tom de cobrança. Um tom que se fez desnecessário a vida toda. Todo o tempo. Pelo contrário.
Quando criança, três anos de idade, arrumei minha malinha, escolhi os melhores brinquedos, pedi ajuda à mamãe para abrir a porta de casa e logo em seguida para apertar o botão do elevador, por favor, e anunciei “tô me mudando pra casa da vovó”. Só não fui porque fui convencida de que não acharia o caminho sozinha e poderia acabar perdida na rua, morando com desconhecidos, debaixo de alguma ponte.
Não deu pra morar na casa mais legal de todo o mundo, onde eu tinha carinho de sobra, não precisava fazer lição de casa, tudo que eu fazia era lindo e muito elogiado e podia comer sorvete de chocolate quando me desse vontade, mesmo que fosse pela manhã. Mas era lá que eu passava todos os dias e todas as noites das minhas férias e todos os dias e todas as noites possíveis aos finais de semana.
Meus pais já até sabiam como funcionava e sempre levavam uma muda de roupas quando tinha algum evento por lá.
Vovó era a mais louca das avós que eu conheci por aí. Além de comer uma enorme quantidade de sorvete de chocolate comigo, sugada por canudinho de canecas enormes, foi ela quem me ensinou a falar os palavrões que mais utilizo até hoje e foi com ela que entendi o que era girl power – vovó matou uma cobra para me proteger, levava a família nas costas, usando a criatividade quando era preciso, inclusive, para ter o que comer e sempre foi considerada linguaruda, falando em uma época em que mulher não tinha voz nenhuma.
Quando adolescente, a história foi a mesma. Quis morar com ela de novo. Dessa vez, nada me faria mudar de ideia. Quem me barrou foi a própria vó, que sabia que esse lance de garota muito jovem, que chega de madrugada, não daria certo não. “Prefiro que fique com a sua mãe”, disse, fazendo questão de ressaltar que eu poderia, obviamente, aparecer por lá quando e como quisesse. E por quanto tempo desejasse, contanto que não houvesse uma mudança envolvida. Nenhuma responsabilidade, só diversão.
Segui passando boa parte de minhas férias naquelas casas – vovó passou por duas nesse tempo de nossa convivência e não sei dizer qual é a minha preferida -, mas agora tinha muito mais intimidade envolvida. Além de ser a única pessoa no mundo capaz de desfazer os nós que se emaranham nos meus cabelos, bem na nuca, e fazer uma massagem mágica que resolvia qualquer princípio de enxaqueca, era ela a única que sabia de meus podres. Todos.
Todos os homens – os péssimos, os piores ainda e aqueles bonzinhos, por quem eu não tinha nenhum interesse – passaram por seu conhecimento. E como já contei em textos passados, nossas conversas, por mais pesadas que fossem, eram sempre regadas a guloseimas e falta de julgamento. Vovó nunca me lançou nenhum olhar de desaprovação. Pelo contrário, sempre me sugeria o jogar-se na vida, delicioso que era, e prometia estar ali para qualquer eventual desenrolar desastroso.
Quando meu choro em seu colo se fazia iminente, ela cumpria o prometido. Me oferecia sorvete de chocolate, seus ombros, seu colo e sua cama, para que eu ali acampasse, sabendo que nada de mau, nunca, jamais, aconteceria sob seus cuidados.
Quando minhas histórias amorosas passaram a envolver nome feminino, sua lucidez já não era a mesma. Mesmo assim, tive a sorte de receber um caloroso sorriso e o melhor abraço da vida, perdendo apenas para o de meu falecido avô.
Não me sirvo de modéstia quando o assunto são meus avós maternos. Sei que fui para eles tão importante quanto foram para mim. Sei que nossa conexão transcende vidas passadas ou caminhos futuros. Sei que o que a gente tem é só nosso e que ninguém nunca vai entender.
Conheço histórias de minha avó que ela jamais contaria aos seus filhos. Talvez eu saiba mais sobre sua sexualidade do que meu avô jamais soubera. E talvez, não… disso eu tenho certeza, nunca ninguém tenha me entendido e me conhecido tão profundamente quanto a senhorinha de cabelos brancos e olhos muito muito verdes que, como criança, gostava de mostrar a língua pelas costas de qualquer um que a contrariasse.
Hoje eu sou uma neta ruim. Uma neta ausente. Uma neta que não tem vontade nenhuma de visitar a avó na UTI.
E não tenho vontade mesmo. Nessas horas me lembro de meu avô, quando dizia que eu passaria por seu antigo apartamento, num carro conversível, com meus amigos, e diria “olha, meu avô morava aqui, nem sei se mora mais, por onde anda…” e em parte ele tinha era muita razão. Toda vez que passo pela rua Clélia – e tenho muitas testemunhas que não me deixam mentir – menciono a melhor casa de todos os tempos. Conto que ali morou a melhor dupla de senhores que esse mundo já conheceu. E me encho de lágrimas toda vez, pela falta que sempre me fará, pelo buraco no peito impossível de ser preenchido.
Eu fui uma neta incrível. Eu estive presente em todos os momento. Eu não desapareci nem quando adolescente rebelde, odiando meus pais. Minha prioridade sempre foram eles.
E tem sido difícil, mais do que eu jamais poderei explicar. Impossível de transformar em palavras.
Dona Dirce, Ircê, gradma, vovó. A mulher de bunda flácida, tão apreciada por meu avô, que eu gostava tanto de apertar enquanto entoava cantos que só a gente sabia cantar. Ela não está aqui. E eu não sei mais como me portar.
E eu não sei mais como suportar, vó. Como viver um luto de alguém cujo corpo ainda respira. E isso me desespera. Me desanima. Me deixa confusa. Não sei o que fazer. Não quero te abandonar, eu não sou esse tipo de pessoa. Mas não aguento te ver sofrer, também não sou esse tipo de pessoa.
E eu sei o que você pensaria. A gente não é assim.
De vez em quando, quando estou ali ao seu lado, em meio a devaneios que chegam a divertir, ainda vejo o brilho nos seus olhos. Aquele mesmo brilho de quando te contava coisas que só você podia saber. Segredo nosso.
Nessas horas, eu invoco nosso laço. Tiro do bolso a caneca imaginária, pego da gaveta um canudo dos mais grossos e nos sirvo do melhor sorvete de chocolate já fabricado. Sugo, sugo, sugo, engolindo toda a nossa história. Me deleito guardando as memórias – tão nossas, mas só minhas – de um presente que já não tem mais você ali.

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