forget

Você nunca foi assim. De não resolver as coisas. Pelo contrário, foi você que me ensinou a falar.
Mas ontem. Ontem você foi cruel.
E aí você esqueceu.
Não é que não quis.
Ou não tava no clima.
Ou inventou uma desculpa.
Opções essas que, bem ou mal, envolvem uma preocupação, mínima que seja.
Um pensar.
Mas não. Não inventou nenhuma desculpa ou simplesmente não queria.
Você esqueceu.
Esquecer. Verbo transitivo direto e pronominal. No dicionário: perder a lembrança de; não pensar em; deixar escapar da memória; não se lembrar de.
Você esqueceu.
Você es que ceu.
E eu repito essas duas palavrinhas tão cruéis como quem explica matemática complexa a uma criança de cinco anos, que é para que meu cérebro não confunda ou deixe de entender. Para que meu cérebro não se esqueça.
Você esqueceu.
Me esqueceu?
Não sei.
Não se importou?
Ou não te fez nenhuma falta?
Não sei o que me soaria melhor. O que seria pior. Explicar a mim mesma a falta que não te fez seria mais complexo do que explicar matemática complexa a uma criança de cinco anos.
Porque crianças de cinco anos, veja bem, são muito subestimadas por nós, adultos, que nos julgamos sabedores de tudo.
Entender a falta que minha falta não te faz seria como tentar ensinar russo a uma senhora chinesa de mais de 80 anos.
Ainda assim, seria tão pouco. Porque os orientais, veja bem, são conhecidos por sua enorme sabedoria e ainda são o povo que mais vive com qualidade e longevidade no mundo.
Seria então como mostrar sinais de Deus a um ateu? Discursar sobre a paz no Oriente Médio? Colocar um estudante de humanas para trabalhar no mercado financeiro? Unir petralhas e coxinhas. Admiradores de iOS e Android. Doce e Salgado. Bolsonaro e humanos. Dia e noite. Vida e morte.
Seria mais.
Seria Nazaré Tedesco confusa com a geometria.
Os melhores e piores memes que a internet já fez, jogados num enorme caldeirão do Huck, cheio de quadros ruins demais pra gente querer assistir, bons demais pra mudar de canal e tristes demais pra segurar as lágrimas que rolam rosto abaixo sem conseguir controlar na frente dos familiares, que nem reparam, hipnotizados pelas imagens de uma TV de tubo.
Seria perder o sábado torcendo pela fortuna dos outros, medida por uma parede de números e muita ou pouca sorte.
Seria demais. Too much. Demasiado. Seria como explicar para quem sofre com a mínima ausência, que sua ausência não é sentida. Seria dizer que a falta que corta a pele, sufoca o peito e parece que vai matar de um lado, do outro não se sente, se perde entre os afazeres da vida. Se esquece em cima da escrivaninha, como se fosse um objeto, obsoleto, que ninguém vai mais usar.
Seria maldade.
Seria mortal.
Seria o fim.
Por isso, esqueço.
Do verbo perder a lembrança de; não pensar em; deixar escapar da memória; não se lembrar de.
E sigo tentando ensinar crianças e idosos. Porque esses, prodígios e sábios, ainda deixam um fio de esperança.
Quem sabe até você se lembrar. Verbo transitivo direto e bitransitivo. No dicionário: trazer à memória; recordar; guardar ou ter na lembrança; recordar-se.
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