proibido sentir

você está muito chata.
você está muito sensível.
você tem ficado muito bicuda.
você é cheia de mimimi.
você fica brava por qualquer coisa.
qualquer coisa te deixa de mau humor.
você se ofende à toa.
tudo você chora.
tudo você se fecha.
nada para você está bom.


queria que você tentasse entender como eu me sinto.
quando digo que estou chateada, não queria ouvir “eu não fiz nada”, mas “o que foi exatamente que fiz para que você se sentisse assim?”.
queria esse tipo de cuidado, esse tipo de conversa, esse tipo de vontade de navegar no meu eu.
eu sou uma pessoa que sente.
sempre fui.
e sempre fui reprimida por isso.
“você é muito sensível” escutei um milhão de vezes até decidir me fechar.
e me fechei.
e parei de ser a pessoa que sente.
passei a ser a pessoa que sofre. apenas internamente. em silêncio.
sem incomodar ninguém.
sem ser chata ou mimizenta ou cheia de questões aparentemente tão difíceis de compreender.
nunca mais demonstrei. ou chorei.
anos e anos de lágrimas aposentadas, torneirinhas fechadas, abertas apenas em descarregos ocasionais, de som abafado embaixo do chuveiro.
quando você chegou, eu era fria.
e fui me abrindo aos poucos. bem pouco. sutilmente.
tinha medo de te assustar com a inconstância, com a intensidade, com o sentir.
mas você era diferente.
me cutucou. cutucou. cutucou.
até machucou de tanto tentar.
exagerou.
extrapolou.
foi além do meu limite. me fechou.
mas insistiu. e tentou de novo e de novo e de novo.
abriu a minha concha, num ambiente controlado, me senti segura.
senti.
me deixei sair.
naveguei livre por um mar desconhecido.
um livro em branco onde era obrigatório sentir.
e falar sobre isso.
meu sonho se tornando realidade.
minha alforria.
e sorri.
e chorei. em público.
no começo era com um olho só.
mas aproveitei.
contei.
horas e horas colocando sentimentos para fora.
quase uma terapia.
melhor.
com alguém que se importava de fato.
uma troca que aprendi a amar.
e amei.
me esbaldei.
e durou bastante até.
até que foi se calando.
e calando.
e calando.
e calando.
deixando de ouvir também.
até que o discurso de antes, de todos os outros, se fez presente novamente.
iminente.                                                                 

eu estou muito chata.
eu estou muito sensível.
eu tenho ficado muito bicuda.
eu sou cheia de mimimi.
eu fico brava por qualquer coisa.
qualquer coisa me deixa de mau humor.
eu me ofendo à toa.
tudo eu choro.
tudo eu me fecho.
nada para mim está bom.

não tem problema.
eu já sei como agir.
não é a primeira e, believe me, não será a última vez.
a concha está sempre lá.
é só entrar.
me aconchegar em mim de novo.
me esconder para me proteger.
não tem problema.

mas se não era para me libertar.
então por que me forçou a sair?

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