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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Analisar-te-ei

Amigos, amigos… Facadas à parte.

comecei a chamar a menina de traíra, veja bem, sem que ela me tenha feito nada. absolutamente nada. bem, nada diretamente, né? porque magoar amigo é magoar-me duas vezes. traição, então, nem se fala. que a gente passa uma vida inteira de confiança, respeito, admiração. segura a cabeça do outro enquanto o outro vomita, não deixa engasgar, pega água gelada, protege o cabelo e até leva pro hospital, se necessário. tudo sem contar pros pais do dito cujo, que além de pisar, espirra a merda pros amigo tudo. que a gente faz voz de quem sabe muito bem do que está falando quando recebe a ligação às quatro da manhã de uma mãe desesperada e responde “aham, aham, tá aqui sim, mas não pode falar, porque tá no banheiro”. e aí é a gente que desespera, ligando para todos os conhecidos em comum, hospitais, iml, suando frio até aparecer, tão vivo que dá vontade de matar. a gente pega carro emprestado para acudir quando foi preso, quando foi pego, quando tá triste. a gente deixa de dormir para servir de terapeuta. gasta o crédito que não tem para acalmar ânsias noturnas. deixa de lado família, trabalho, animal de estimação. que a vida do outro é tipo continuidade da nossa. que se o outro morre, grande parte da gente vai junto. que quando machuca, a gente fica meio manco também. e se estamos numa canoa, eu remo e você descansa. você descansa e eu remo. e aí eu falo mesmo. que na hora de ser amigo na festa e na farra, ah, aí é mara! mas na crise e no problema, aí não dá para aguentar? que pode me ofender, difamar, xingar e até berrar. nada disso me indigna. mas apunhalar pelas costas a amiga? cê me desculpa, que aí não vai dar.

Raio-X

era uma menina. sentada na sarjeta. testa nos joelhos. mãos entrelaçadas.
era uma menina. cabelos presos. fios naturalmente caindo sobre as costas.
era uma menina. sapatos baixos e vermelhos. calças sem barra varrendo o medo do asfalto.
era só uma menina. destruída pelo tempo. pelo vento. pela chuva.
altura mediana. lábios finos e mandíbula grande. sobrancelhas definidas e cílios curvados.
pele clara e pelos longos. unhas grossas e juntas doídas.
anônima.
era uma menina. coração grande, peito pequeno. pés côncavos. mente convexa.
era uma menina. nádegas. coxas. joelhos bambos.
era uma menina.orelhas minúsculas. fígado doente.
era só uma menina. lágrimas salgadas. choro corrente.
dedos trêmulos. vontade de gritar. desespero no olhar.
lavava a nuca em água gelada. passava a vida à espera de nada.
era uma menina. meus sentimentos. eram uma menina.

Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Luiz morreu aos 54 anos.
Refeições gordurosas regadas a cerveja, vinho e uísque da melhor qualidade provavelmente destruíram seu fígado.
Mesmo sabendo de sua condição genética – a mãe de Luiz morreu de cirrose sem nunca ter bebido uma gota de álcool -, comeu e bebeu nos melhores restaurantes.
Experimentou todos os sabores. Japonês, indiano, apimentado mexicano, dendê baiano, testículo de jacaré e incontáveis frutas direto do pé.
Até os 50, chegava em casa depois das 4h da manhã. Dava-se ao luxo de encontrar amigos de anos pelo menos duas vezes por semana. Era sauna, era bar, era jantar. Era qualquer desculpa para festejar, farrear, desopilar.
Luiz tinha uma legião de amigos. Uns fiéis, outros nem tanto. Emprestava dinheiro, confortáveis ombros e conselhos capazes de mudar vidas.
Luiz era filósofo. Era químico, alquimista. Era matemático e professor. Era influente, poderoso. Era funcionário dele mesmo, diretor.
Assistiu a todos os bons filmes, acompanhou todas as boas séries e leu todas as notícias que as poucas horas de seus poucos dias deram conta de absorver.
Era inteligente. Trabalhador. Ambicioso e sonhador.
Mesmo pobre, viajava de primeira classe. Conheceu o mundo. China, Emirados Árabes, Estados Unidos, Canadá. Fez nevar Paris. Saboreou todas as cervejas da Bélgica. Passou frio na Itália. Brasil. Espanha. Inglaterra. Alemanha. Cozumel. Chile. Argentina. Paraguai e Uruguai.
Luiz tinha camaradas em todos os idiomas.
Suas cinzas serão jogadas em límpidas e turvas águas em um cruzeiro pelo mar caribenho.
Luiz viveu como quem tinha nas palmas das mãos o mundo inteiro.
Quando internado, arrumou briga com as enfermeiras. Queria trabalhar. Reclamava da comida sem gosto. Queria bife com batata frita.
Mesmo assim, tirou foto com seu colega de quarto, aquele do leito ao lado. E prometeu que sairiam dessa juntos.
Luiz morreu.
Um grupo de mais de duzentas pessoas ao seu velório compareceu.

Muda

Lições que apenas uma semana sem voz pode ensinar:

1- não adianta competir. não ganha a discussão quem tem o melhor argumento, mas quem fala mais alto.
2- não vale a pena forçar a voz por coisas pequenas ou sem importância.
3- dá para passar pela vida, tranquilamente, sem falar muita coisa. muita mesmo.
4- seria legal perder a audição parcialmente por uma semana também. sem poder falar, a gente ouve tanta merda.
5- pensar antes de falar faz, realmente, muita diferença na vida. em muitas vidas.
6- deixar de falar evita brigas.
7- a falta da fala aguça outros sentidos.
8- identifica-se a sensibilidade de quem consegue te entender pelos olhos.
9- é preciso paciência. sua e dos outros. muito mais dos outros do que sua.
10- é possível dizer ‘obrigado’ com um sorriso.
11- é possível desculpar-se com o franzir do nariz e da testa.
12- é possível dizer qualquer coisa. qualquer. por expressões faciais.
13- é possível entender também.
14- todos aqueles anos jogando Imagem e Ação realmente me foram muito úteis.
15- nem todo mundo jogou Imagem e Ação na infância. desses eu desisto.
16- amigo mesmo é aquele que oferece ser-te a voz. para qualquer assunto.
17- jornalista sem voz é maratonista manco.
18- nem tudo se resolve por e-mail.
19- a voz do Google Tradutor não serve apenas para pedir pizza. mas é engraçada em qualquer situação.
20- não poder cantar no carro faz o caminho ser mais longo.

Correio (des)elegante

Dá um friozinho na barriga. Liga pra amiga. Sorri. Dá pequenos pulinhos sem sair do lugar.
Ele respondeu.
E ela, prestes a abrir a mensagem, o coração e a vida, trava.
Os dedos, em posição de ataque ao mouse, param ainda no ar. endurecem. entristecem. perdem toda aquela euforia incontida de quando digitavam a pergunta fatídica.
Ele respondeu.
O sentimento era o mesmo de outrora e apesar de uma nova história vinha recheado de caquinhos de uma devastação anterior. Ainda em recuperação.
A ansiedade vira angústia. A vontade vira desespero.
Ele respondeu.
O olho não quer ler. O cérebro não quer saber e a alma tem medo de cair, de novo.
Até o corpo responde. Borboletas no estômago passam a dar dor de barriga. A cabeça lateja, a pele arrepia. Chega a doer.
Ele respondeu.
É dor do passado. É trauma antigo. É como quem perde uma perna mas a continua sentindo, doendo, coçando, esticando e dobrando.
É fantasma. É real.
Ele respondeu.
E ela não quer mais saber. Não quer entender, não quer responder.
A vida se ajeita agora, só agora. Ainda não se pode arriscar. Acertar, errar, se perder e afundar.
Ainda não dá para amar.

Desastre natural

Você foi terremoto, seguido de tsunami, seguido de furacão – que era para ter certeza que havia despedaçado toda minha cidade de vidro.
Não deu tempo de evacuar prédios, casas, artérias e corações.
Não deu tempo de nada.
Correu quem tinha esperança, mas caiu na primeira pedra, primeiro telefonema, primeiro rosto que parecesse com o seu.
Era genocídio sem fim. De todos os meus neurônios, sentimentos, de toda minha vida inventada.Com você.
Não foi fácil, meu caro.
Escutar teu nome.
Conviver com tua sombra.
Ler meus textos. Seus.
Exilei-me, experimentei, refugiei emoções. Controlei.
Chorei quando precisava. Sim.
E perdi a maior parte de mim.
Mudei. Pintei. Cortei.
Trabalhei.
Internei. UTI.
É ridículo contar o tempo que demorou para respirar sozinha novamente.
Desliguei os aparelhos.
E sobrevivi. Pisando em ovos. Catando conchinhas na areia.
Mas aliviei. O pulmão e a cabeça. E cresci.
Hoje ainda chuto pedrinhas da avalanche causada pelo nosso primeiro impulso.
Mantenho intacto o guarda-chuva que me foi emprestado nos dias de sol e tirado em dias de chuva.
Já não me importo com cabelos molhados.
Ainda teimo em colar antigos vasos quebrados.
O velho jogo de tentativa e erro. e erro. e erro. e acerto.
Só assim reconstrui meu império.
Pequeno, mas só meu.
E no caminho de tijolos dourados (acredite!), ainda encontro caquinhos.
Mas ando com vassoura e sacos de lixo sempre à mão.
Que é para jogar fora o que ainda insiste de você.
Para longe de mim.

Fundidos

*texto baseado em lembranças sonadas de uma vida inventada e no romance Febre, de Renato Essenfelder – cuidado, leitores: pode conter spoilers

……..

Talvez ele tenha se matado, pensei.
Talvez fosse eu, naqueles tempos, tivesse me matado também.
Senti vergonha, porém.
Confesso que também cheguei aos mais de quarenta graus, que perambulei cabisbaixa, moribunda.
Também repassei, como fosse um filme, todos os detalhes, pequenos diálogos, grandes mentiras.
Homem suporta menos a dor.
Não fosse fêmea, provável também implorasse.
Implorei, talvez.
Tentei, tentei.
Marquei encontros em lugares nossos. Praças.
Usei de um tudo de desculpa.
Fui embora chutando pedrinhas. Descalça.
Tentei odiar também, assim como ele, igualzinho.
A profissão. A arrogância. O sabe tudo. Porque sabia mesmo. A inteligência.
Mesmo usando eu palavras difíceis também. Também soberba.
Maldisse com todo desdém que cabe apenas àqueles profundamente apaixonados.
Amar é isso. É odiar até as melhores qualidades.
Por saudade.
E foi isso que fez.
Que quase fiz. Que fazemos todos, oras bolas.
Porque o amor não é apenas bom quando correspondido, não, veja bem.
A dor de amor é um cutuco na alma, é febre que pulsa sem motivo algum. São veias que queimam a qualquer indício de passo, pensamento ou respirar.
Sofrimento são palavras bonitas descritas com raiva de afeto. Desilusão é vida. São sentidos aguçados, agudos, momento único paradoxal aos pequenos e raros segundos de plena felicidade, quando nunca se é mais intenso.
Não deslizar aos prantos no box do banheiro, não debulhar-se em posição fetal, não sujar de rímel o travesseiro, meu amigo, é apenas sobreviver à mediocridade do cotidiano.
As pílulas, então, pequenas bolinhas de salvação, seriam talvez a maneira de seguir remoendo, revivendo, delirando. A única maneira de seguir filosofando. Com maestria.
O jeito de continuar escrevendo.
Sofrer por amor é dominar um tema.
Mas entregar-se pode ser loucura.
Loucura é comprar anel, é optar por ficar.
Nunca seja a que ama mais, aconselha minha avó.
Mas somos teimosos. E buscamos a dor.
Sabíamos que o não seria não.
Perguntamos pelos motivos errados, preocupados com a ínfima possibilidade de um sim.
Errôneo.
E caímos porque é só assim que funcionamos.
Perdidos. Metades. Feridos. Dramáticos.
Em busca de cura que leve nome próprio, que mascare a ressaca com mais um porre.
Que é para levantar do fundo do poço. E começar tudo de novo.

 

Vaidade

Ele era namorado, ficante, rolo e peguete de uma amiga. Então acho que isso não conta muito. Mas foi a primeira vez que fui reconhecida como a autora do Escrevo, depois apago. A tiete parecia eu. Sorriso de orelha a orelha, sem conseguir esboçar uma reação madura e segura de quem escreve de nariz empinado e joga pro mundo, pro mundo ver se quiser e se não quiser também, tudo bem.
Havia recebido, sim, e-mails, comentários e até uma carta (pasme!), mas mais uma vez, é cibernético, sem cara, sem expressão. Poderia muito bem ser meu pai, eterno amante enquanto durou de meus trabalhos, fosse qual fosse, tema por tema. Poderia muito bem dar uma incentivada, mostrar que fazia alguma diferença aquele tempo todo de solidão e coque, pijama e coca, cigarro e computador, debulhando dedos, teclados barulhentos e frases incompletas.
Todo aquele tempo bolando nomes, criando personagens, eu mesma, eu-lírica. O outro (nunca sei, já nem reconheço, tão misturado e confuso). Tanto sofrimento mantendo aquela dor, aquele momento agudo de dor (deleite) em que o texto flui sozinho, em que o escritor, na verdade, nada mais é do que o Chico Xavier de si próprio. Nada baixa, não tem espírito, não tem além. É muito simples, apenas transborda. E para nas linhas, parágrafos, diálogos.
E só passa quando dá sono, só melhora quando vomitado em letras MAIÚSCULAS, vezes minúsculas sem ponto sem nada nem vírgula que não dá tempo de digitar tanto sentimento ponto final para quê se é de reticência que é feita a vida
E para quem? Não tinha, lembra? Era só mesmo um diário mais maduro, talvez ainda meio adolescente quando batente da mesma tecla, quando reciclando o mesmo tema e espremendo o tecido de sangue. Até a última gota.
Mesmo assim. Desabafo. Que precisa sair e sair e sair e navegar pela rede sem fim, globalizada. Que às vezes eu juro que recebo visitas até da China, vejam só.
E de inocente e despretencioso passou a ter seguidores e alguns likes e compartilhamentos e tudo isso que a rede permite. Temas em comum, assuntos que interessam. Palavras que poderiam ser as suas (como não pensei nisso antes? – pensam alguns. poxa, eu poderia ter escrito isso – comentam outros). Identificação.
E o ego infla, claro, me estão lendo!!??!!
Literalmente.
Meu todo, vezes repartido, vezes amassado, vezes derrotado, exagerado. Vezes outro. Mas sempre eu.
A ideia de me deparar com a capa de meu livro ainda não escrito tapando a cara de transeuntes no transporte público faz sorrir até o pulmão, que respira mais aliviado todo o peso do sentimento guardado.
E o caso, peguete, rolo, namorado, ficante e amante da amiga virou pó, sujeira, besteira e muita lágrima. E eu nunca mais encontrei o cidadão, que não sei se ainda navega por essa página tão pouco atualizada.
E nem se fala mais dele não, aquele tipo de nome que vira até palavrão. Insulto. (o você-sabe-quem). E tenho raiva, é lógico, porque magoar amiga é magoar duas vezes. Mas ainda sorrio, confesso. Talvez seja até traição, quem sabe.
No meu íntimo, lembro-me. “Você é a menina do Escrevo”, assim, próximo, conhecido desconhecido de velhos tempos, outros carnavais.
Ambiente escuro e úmido e alto, som muito alto. E muita cerveja. E eu me lembro até o gosto. Guinness. Lembro até o cheiro. Batata. Com bacon (talvez) e cheddar (com certeza). Não na nossa mesa, ao lado. Cigarro. Risadas. Abafado e aconchegante. Tão longe, como se fosse hoje.
Sozinha, chego ao gozo. Do ego. Reconhecimento. E mais um motivo. Para seguir escrevendo.

Seca

Me deu vontade de escrever. Só não sabia sobre o quê.
A sensação é a mesma que antecede o choro. Nó na garganta, invenção de motivo, lembranças passadas, nostalgia proposital, seleção de músicas que mexem.
Deu vontade de ter tanto para dizer que os dedos não acompanham, se machucam, quebram teclados e lotam páginas e páginas de word em branco.
Mas sobre quem?
Por quê?
Quando?
Como?
Dê-me um lead, jornalista, mostre-me um caminho.
Procure uma foto.
Leia um texto.
Lembre-se de um amor.
De uma dor.
Sei lá.
Qualquer coisa que saia do objetivo, do trabalho, do mecânico.
Dê-me poesia, escritora.
Sei que está aí.
Que ainda existe.
Que pensa.
Que transborda.
Que cria.
Só não escreve.
É normal.
Não se pressione, pessoinha.
Ainda há tempo.
Acalme-se.
Deixe-se.
Desenhe, então.
Ou não.
Só não vá assistir a qualquer besteira na televisão.
Leia, então.
Melhore.
Inspire-se.
E volte.
Quando for seu tempo.
A caneta será sempre sua.
E a folha seguirá atrativa.
Mesmo quando amarelada.

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