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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Contos de depois da meia-noite

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Tem gente que parece que entra na vida da gente só para fazer bem. Parece que aparece só para nos fazer acreditar que podemos fazer mais e melhor e ser mais e melhor. É para esse tipo de gente que a gente arruma tempo na rotina atribulada, empesteada de nadas que a gente faz para tentar se sentir mais e melhor. Sem sucesso algum. E a gente ri e a gente chora e a gente se dá as mãos, gratos por esse tipo de contato verdadeiro. De carne e osso e sem importar maquiagens e sapatos de salto alto que a gente usa, mesmo com dor nos pés, mesmo com alergia nos olhos, para tentar parecer com aqueles que achamos ser mais e melhores do que nós, mas que nem sempre o são. E a gente ri e chora e chora de rir das desgraças da vida. Que doem, mas fazem parte. E a gente se apoia sem julgar pensamentos nefastos ou ideias ruins que, quando trabalhadas, podem sim se tornar melhores e mais plausíveis. Porque nenhuma árvore começa sua jornada lambendo o céu. É comendo terra que a semente germina. E a gente sai de uma conversa dessa regada a vinho que nem precisa ser bom, porque a companhia compensa. E a gente sorri, sozinho mesmo. Sabendo que com esse tipo de gente na vida, sozinhos mesmo nunca estaremos. E a gente vai dormir sabendo que amanhã vai ser um dia bom, que a gente já é um pouquinho mais e um pouquinho melhor do que era cinco horas atrás. Esse tipo de gente devia ter nome. Esse tipo de gente se chama amigo. Quem tem amigo nem precisa fazer muito, não. Só de estar ali já faz de si muito mais e muito, muito melhor.

Convulsa

Pisei na bosta enquanto era apunhalada pelas costas
depois de um momento constrangedor
e um teste de caráter/camaradagem/mesmo time
meio que hétero, meio que gay
porque na hora h bem capaz que pegasse a Maria Gadú
meu gosto musical é muito lésbico
mas gosto de homem, desculpa
e obrigada por me ouvir mesmo que indo embora, mesmo que ficando
que não me deixaria sozinha chorando, esperando
e ri e chorei
e chorei enquanto ria
porque a vida é um mar de sentimentos complexos, vazia
que só quando criança é mais mágico de lidar
ainda tenho medo de palhaço e da gargalhada que com ele posso dar
e fazia tempo que a inspiração aparecia, foi só hoje, na mesa de bar
e chega de rima, que o caminho é para cima e é bem lá que a gente vai chegar
os 26 tão chegando
e eu achava que com 30 o primeiro Emmy já tava na manga
se consigo uns trocados pra breja já é felicidade, e é essa que conta?
reagi bem a uma notícia má
e mais fácil no espelho foi de me olhar
reconheci a menina que ali ainda habita
que dá dois passa para frente, mais ainda hesita
saída da fossa, inteirada na moda
mas só o que quero ser é FODA
eu sou eu e eu sou você
e se não houver mais ninguém
a gente se tem
então, só por hoje, te peço: fica bem?

Referências

Xeretando velhos e-mails – veja bem, o tipo de coisa que não se pode fazer depois da meia-noite, muito menos em dias propícios a procurar no youtube a cara feia do Abujamra (se é que é assim que se escreve) declamando qualquer coisa – que fosse batatinha quando nasce se esparrama (ninguém me convence do “espalha a rama”, coisa mais feia) pelo chão – daquela maneira só dele.
Procurava eu, na verdade, a versão original de um dos textos – publicados neste blog onde escrevo agora – modificados por consideração. (“eu protegi teu nome por amor”, diria cazuza) e terminei a viagem (e a manhã) em baús encontrados bem más allá do continente.
Perdeu-se a terra, o chão.
Em tempos aqueles toda palavra era feita para mim, para nós.
Cada trançar de frases, cada desdobrar de verbos, a escolha perfeita de pontuação.
E o sorriso idiota no rosto.
Aquele que ainda tanto temo e que nunca mais, nem em tempos de dor de amor aguda e (obrigada, devo dizer, ao menos) material para tanto texto drama queen, ousou esboçar-se em minha face outra vez.
Ver poesia em tudo era voar o tempo inteiro, suscetível a qualquer rajada de vento, vendaval.
Para dizer “oi” escrevia-se “O Livro do Desassossego” quase, eu te juro.
Eis o mal do relacionamento à distância. Do meu relacionamento à distância.
O meu escrever que não sabe ser conciso – que se médico fosse, receitaria apenas amor em letras legíveis, mesmo quando em estado terminal.
Era um e-mail de desculpa, que virou e-mail de promessa, que virou obra de terror. E a literatura do perdão foi que perdeu-se, e até hoje não sei quem devia o quê, a quem.

Já empurrando com a barriga, sabendo da decisão errada de caminhos tortuosos e medo do ponto final, encontrei em Marshall Berman minha resposta, minha vida. E a enviei por e-mail, inteira. Que era para ver se o alguém me salvara. E morri.
“Os acontecimentos se precipitam; o filho de Gretchen morre, ela é lançada no cárcere, julgada como assassina e condenada à morte. Em uma derradeira cena de forte comoção, Fausto vai à sua cela no meio da noite. De início, ela não o reconhece. Toma-o pelo carrasco e, num gesto insano mas terrivelmente apropriado, oferece-lhe o próprio corpo para o sacrifício derradeiro. Ele lhe jura seu amor e tenta convencê-la a fugir com ele. Tudo pode ser arranjado: ela necessita apenas caminhar até a porta e estará livre. Gretchen se comove, todavia não se moverá. Alega que o abraço de Fausto é frio, que ele em realidade não a ama. E há alguma verdade nisso: embora ele não queira que ela morra, tampouco gostaria de voltar a viver com ela.” – Tudo que é sólido desmancha no ar.

[assim mesmo, grifado]

E o passado se desfaz também assim, veja só. Ainda há coerência na luz enxergada com lentes nebulosas, tateando o chão do inferno, revestido de pedregulhos pontudos. Perigoso.
Faz-se febre no rosto novamente. Pega fogo. Queima. Alucino.
Goethe mais uma vez faz sua mágica.
Era só uma lembrança, menina, calma.
A janela abre. O corpo respira.
Fecha o computador e vai dormir.
De novo. E para sempre.
Pelo menos dessa vez.

Fundidos

*texto baseado em lembranças sonadas de uma vida inventada e no romance Febre, de Renato Essenfelder – cuidado, leitores: pode conter spoilers

……..

Talvez ele tenha se matado, pensei.
Talvez fosse eu, naqueles tempos, tivesse me matado também.
Senti vergonha, porém.
Confesso que também cheguei aos mais de quarenta graus, que perambulei cabisbaixa, moribunda.
Também repassei, como fosse um filme, todos os detalhes, pequenos diálogos, grandes mentiras.
Homem suporta menos a dor.
Não fosse fêmea, provável também implorasse.
Implorei, talvez.
Tentei, tentei.
Marquei encontros em lugares nossos. Praças.
Usei de um tudo de desculpa.
Fui embora chutando pedrinhas. Descalça.
Tentei odiar também, assim como ele, igualzinho.
A profissão. A arrogância. O sabe tudo. Porque sabia mesmo. A inteligência.
Mesmo usando eu palavras difíceis também. Também soberba.
Maldisse com todo desdém que cabe apenas àqueles profundamente apaixonados.
Amar é isso. É odiar até as melhores qualidades.
Por saudade.
E foi isso que fez.
Que quase fiz. Que fazemos todos, oras bolas.
Porque o amor não é apenas bom quando correspondido, não, veja bem.
A dor de amor é um cutuco na alma, é febre que pulsa sem motivo algum. São veias que queimam a qualquer indício de passo, pensamento ou respirar.
Sofrimento são palavras bonitas descritas com raiva de afeto. Desilusão é vida. São sentidos aguçados, agudos, momento único paradoxal aos pequenos e raros segundos de plena felicidade, quando nunca se é mais intenso.
Não deslizar aos prantos no box do banheiro, não debulhar-se em posição fetal, não sujar de rímel o travesseiro, meu amigo, é apenas sobreviver à mediocridade do cotidiano.
As pílulas, então, pequenas bolinhas de salvação, seriam talvez a maneira de seguir remoendo, revivendo, delirando. A única maneira de seguir filosofando. Com maestria.
O jeito de continuar escrevendo.
Sofrer por amor é dominar um tema.
Mas entregar-se pode ser loucura.
Loucura é comprar anel, é optar por ficar.
Nunca seja a que ama mais, aconselha minha avó.
Mas somos teimosos. E buscamos a dor.
Sabíamos que o não seria não.
Perguntamos pelos motivos errados, preocupados com a ínfima possibilidade de um sim.
Errôneo.
E caímos porque é só assim que funcionamos.
Perdidos. Metades. Feridos. Dramáticos.
Em busca de cura que leve nome próprio, que mascare a ressaca com mais um porre.
Que é para levantar do fundo do poço. E começar tudo de novo.

 

La primera vez que María vio el mar

Nota: texto feito durante minha estadia no México. Não reparem em erros ortográficos espanhóis. Eu tava aprendendo, gente. 😉

Hacía dos años que yo estaba trabajando en el periódico. Como era el comienzo de mi vida profesional, no podía elegir el horario de trabajo o salir de vacaciones en fechas importantes como navidad o año nuevo.

Así, mis colegas de trabajo eran como mi segunda familia. Yo no convivía siempre con las mismas personas, porque en nuestro trabajo debemos salir mucho, para hablar con personas en diferentes lugares y horarios.

Había solamente una persona que yo encontraba todos los días, sin excepción. A veces yo llegaba después de las tres de la mañana solamente para entregar un artículo a mi jefe. A veces llevaba mis pijamas abajo de la ropa formal porque estaba durmiendo cuando me avisaban que debería ir al periódico por motivos como la muerte de alguien importante o algún accidente grave que yo tenía que cubrir.

A veces yo estaba enojada, cansada o tenía mucho sueño y ella podía sentir que necesitaba un café, unas galletas o solamente un abrazo y una sonrisa.

María tenía más de 60 años, nació en Bahia – estado de Brasil conocido por su alegría y bellas playas – y heredó el buen humor de su pueblo, pero, desafortunadamente, fue a la ciudad de São Paulo cuando era muy niña y todavía no había tenido la oportunidad de poner los piés en la arena.

Yo siempre pensaba en deseos y sueños como algo que no podría alcanzar. Soñaba en pisar en la luna, casarme con Brad Pitt, vivir en un castillo o ganar mucho dinero durmiendo. Creo que estuve atormentada por días cuando supe que el gran sueño de María no era viajar por el mundo, comer sin engordar o vivir para siempre. María soñaba conocer el mar.

Hacía 20 años que ella trabajaba limpiando el piso del periódico. Hacía dos años que María me alegraba con su buen café y gentileza.

La playa estaba muy cerca de nuestra ciudad, no más que dos horas en coche. “El sueño más sencillo de realizar”, dijo mi amigo y también periodista, Caetano.

No tuvimos duda, el próximo miércoles, a las seis de la mañana, María y yo esperábamos Caetano en frente del periódico para irnos a la playa.

El camino fue muy divertido con María contando sus historias de cuando era niña. Cantamos, nos reímos y estuvimos muy contentos por todo el tiempo.

Pero todo cambió cuando empezamos a ver el mar por las ventanas. Ella estaba inquieta, nerviosa y parecía que tenía mucho miedo. Cerró sus ojos y dijo que no quería ver hasta que hubiéramos llegado.

Caetano y yo estábamos confundidos y un poco preocupados. No sabíamos lo que pasaba con María. Seguimos el camino y al estacionar el coche al borde de la playa, la señora salió como una niña, corriendo más rápido que sus piernas podrían aguantar.

De sus ojos escurría tanto agua como lo que había en el mar. No le importaba la bolsa o la ropa mojada. No le importaba las personas que la miraban sin entender.

Era una niña de 60 años que jugaba con el juguete más lindo que pudiera tener. Yo no podía moverme, la imagen de María brincando las olas era demasiada emoción para una simple mañana de miércoles.

Era más impresionante que el azul brillante que llevaba el cielo.

Estuve parada por muchos minutos cerca del coche, mirando a María. Creo que vi algunas lágrimas en los ojos de Caetano, pero él dice (hasta hoy) que sus ojos son muy sensibles a la sal y a la humedad del mar.

No me gusta la arena, pero en ese día me encantó construir castillos con María.

En la tarde, íbamos a regresar para empezar a trabajar a las siete de la noche, pero María nos dijo “ahora ya puedo morir”, nos abrazó y nos dio las gracias.

No pudimos salir de allá. Decidimos inventar una enfermedad y nos quedamos en la playa para comer mariscos frescos. El jueves fuimos a trabajar sanos, contentos y más morenos.

El jefe no nos dijo nada, solamente sonrió y asentó la cabeza, contento por recibir galletas y café de María, que no pudo quitar la gran sonrisa de la cara por todo el día.

Descoberta

Eu, sinceramente, achei que tinha superado.
Mas seguia comendo chocolate.
Demais.
Evitava o espelho.
Mudei o cabelo.
Quebrei o joelho.
E precisei me apaixonar perdidamente por um personagem de televisão.
Para entender-te.
Me entender.
Demorei, sabia?
Para sacar o envolvimento.
Tirar do espetáculo alguma lição.
Ficção.
No travesseiro toma o rumo que a gente quiser.
Mão e língua.
Coração.
E a gravação no replay. e replay. e replay.
Pausa.
Click.
Estava lá.
A arte imitando a vida.
A minha vida.
E a vida…
é mais que arte.
Sem roteiro.
Nem pausa.
Nem rec.
Nem play.
Botões quebrados.
E lá vamos nós.
Desapaixona.
Entende.
Sorri.
Joga fora o velho cookie.
Solta o cabelo.
Arruma o joelho.
Reinstala o espelho.
Reabre o coração.

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