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Escrevo, depois apago

Não fui eu, foi meu eu-lírico

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Deixe-me escrever-te

O primeiro dia do resto da minha vida

O primeiro dia do resto da minha vida escritora foi quando sentei à frente do computador e escrevi sozinha minha primeira história.
Não deu tempo de esperar a inspiração chegar. Algo tinha que ser entregue. Então entreguei.
O primeiro dia do resto de minha vida escritora tinha eu e uma página de word em branco, referências abertas em abas do safari, um copo de água ao meu lado e a Niña tentando subir no meu colo.
Não me lembro se tinha chuva ou se tinha sol. Mas tinha uma vontade imensa de mergulhar pelas palavras conhecidas em um formato tão novo. Tinha muita insegurança e um medo danado de não ser boa o suficiente. Mas tinha também a certeza de que seria o melhor que eu poderia ser. E fui.
O primeiro dia do resto de minha vida profissional não teve glamour. Porque era só o começo. Mas teve vinho, teve pizza e teve conversa que durou mais de sete horas, mas pareceu passar apenas em duas.
No primeiro dia do resto da minha vida escritora, dei pulinhos empolgados e assustados com o que estava por vir. Neste primeiro emocionante dia, segurei com firmeza a mão da dupla perfeita, remei e descansei. Encarei os olhos do desconhecido e murmurei a palavra confiança.
Este também foi o dia em que minha fé na humanidade foi restabelecida – ainda tem gente legal nesse mundo, sabia?
E neste primeiro dia do começo da minha vida eu sorri enquanto subia a Augusta cumprimentando seus habitantes raros e magníficos.
O primeiro dia do resto da minha vida escritora teve eu e teve a certeza de que eu poderia ser um alguém igualzinho àquele dia. Maravilhoso.

Desapego

Veja bem, a partir do momento que te entregar esse papel, o texto já não será mais meu. Ele passa a ser seu. Quer dizer, nem seu. Passa a ser nosso. Nem nosso. Ele é dele mesmo, entende? É o conjunto da obra, um trabalho inteiro. Só eu, escrita, é metade. Só você, imagem, falta algo, não é mesmo? É que nem filho, sabe? Bom, eu não tenho filho. Mas tenho mãe. Quero dizer, sou filho de alguém. Todos somos. Enfim… Acho que minha mãe tinha que entender que eu só era dela quando era um bebezinho, que precisava ser alimentado e trocado e banhado. Mas que a partir do momento que cresci e sei me vestir sozinho e pego até ônibus, até trem… A vida agora é minha, não é? Quem toma a decisão sou eu. E o papel, esse papel, é isso para mim. Você não sabe quantas noites eu passei em claro cuidando dele. Sim, cuidando. Tive cuidado para escolher cada palavra, cada vírgula, cada travessão. Passei horas e horas e horas balançando para cima e para baixo. Não para dormir, não. Para ver se ficava acordado. Se o cérebro funcionava. Fui trabalhar virado, completamente virado, a fim de salvar algum pingo de inspiração. Deixei a vida social de lado, parei de beber. Pensei durante meses de minha vida só nele, no bem estar da minha cria. Se tivesse um incêndio, você pode ter certeza, seria a primeira coisa que eu salvaria. Os bens materiais eu sacrificaria. E eu me sacrifiquei. Mas não me arrependo. Só é pai e mãe quem sabe, quem tem, quem cria. E agora ele tá aí, todo crescido. Tomou forma, tá parrudo, tá bonito. E eu passei até rímel, mesmo com blefarite, para entregar a você, em mãos, este pedacinho de mim, que saiu de mim. É um momento tão especial. E eu espero que vocês sejam muito felizes juntos. Que se completem, que se amem. Espero que tenham momentos de tensão, porque todo bom casamento tem. Mas que no final vocês se acertem, na medida certa, sabe? Para arrancar palmas e suspiros. Quero que comentem vocês na mesa de bar, na sala de espera, no subir e descer do elevador. O casal perfeito. Quero tudo de melhor pro melhor de tudo que dei. Tá aqui, pega, é seu. Isso, pega. Cuidado, não amassa. Não, sem dobrar. Isso. Agora lê. Não. Calma. Deixa eu ir primeiro. Tchau. Ah, depois me fala o que você achou. Pode ser sincero. Mas, ó, posso te pedir só um favor? Não muda aquela vírgula, não. Ai, e deixa o artigo, gosto de artigo. Significa muito para mim. É, esse, esse artigo. E esse também, se der. Obrigada. Olha! Não, nada. Só… vê com carinho, tá?

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